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Sítio do Bagode 2 – a chuva


Creso Peixoto

04/11/2017 | 07:00


 Sebastião, Motorista da Linha São Luiz do Paraitinga a Ubatuba, chega mais uma vez à Serra do Mar. Marcam exatos 6h30 no relógio do painel, daquela tarde de fevereiro. Quase não enxerga um senhor agitando braço na parada, onde a vista permitiria bela imagem do oceano, emoldurada pela Mata Atlântica, não fosse o mau tempo. Parecia que o céu iria cair a qualquer momento. Pisa no freio, não muito forte.

– Boa Tarde! O ofegante passageiro quase não consegue falar. Correra para pegar o ônibus. Entrega um rolinho de notas de R$ 2, com elástico. Cara amarrada, como se quisesse, na realidade, reclamar do fato.

– Boa ... responde Luiz, em voz baixa. Fecha a porta rápido. Passa a contar as brilhantes notas azuis, ainda novidade em 1996. Olhos para o chão eram a resposta que preferia para reclamações de passageiros. Usuários gostavam de seu trabalho. Achavam que era tímido e bom motorista. Eventualmente explicava que o chão estava escorregadio e a inclinação na serra, muito forte.

– Não esquece de parar na placa, ok? Pede o Senhor José, morador de uma casinha no meio da serra, um local de risco. A placa? Sítio do Bagode.

– Sim Senhor! A formalidade do motorista contrastava com a familiaridade com os usuários. Conhecia até as estranhas referências para parar o buzum, menos a posição das calotas, comuns ao lado de rodovias onde se precisa frear com frequência. Rampas fortes exigem freagens constantes, mesmo quando se desce engrenado, indicando local de risco acentuado. As rodas aquecem e as calotas de pressão saltam, como se quisessem fugir de um veículo prestes a sofrer um acidente.

Um vento suave empurra folhas sobre a pista molhada. Alguns passageiros olham de um lado para outro em cada nova curva da descida. Outros conseguem dormir, enquanto suas cabeças parecem acompanhar algum estranho ritmo musical.

– Nossa Senhora! Uma passageira do banco da frente deixa escapar, quando a estrada some do para-brisa, em curva muito fechada. Comum nesta rodovia. O veículo agora, bem devagar, precisa invadir o outro lado da pista para completar o movimento.

A placa aparece. Senhor José agradece e desce. Mal sabia que nunca mais iriam se encontrar naquele local.

– Zelão! Corre prender os porcos! Grita sua mulher, mal ele entra em casa. A chuva era iminente.

– Fia, já vou! Vou colocar outro plástico na telha do banheirinho.

– Hum! Um dia você troca. Sei!

Naquela noite, a chuva foi uma das mais fortes dos últimos anos. Dormem o casal e quatro filhos. O ruído da água, vindo por todos os lados, bruscamente é abafado por um outro barulho. Forte o suficiente para acordar qualquer um que ainda quisesse parecer dormir. Uma chuva que gerava medo a todos da simples moradia, por mais que José tentasse demonstrar calma. As velas mais pareciam adornos de oratório do que para realmente iluminar. Luiz levanta. Acha que algo grave pode estar ocorrendo.

Abre a porta dos fundos. No escuro da noite percebe que, abaixo da casa, não havia mais chão. Fecha a porta de forma automática, como se fosse suficiente para evitar uma tragédia.

– Pega os filhos! Rápido!

– O que acontece? Dorinha, sua mulher, gritava, enquanto corria para o beliche ao lado. Os quatro filhos, ainda pequenos, começavam a chorar e chamar pela mãe.

– Por aqui, vai! Zelão quebrava uma janela do fundo. Acabara de ver que algo ainda empurrava a casinha para o abismo. Uma árvore fizera todo o barulho.

– Vai! Dá o luizinho! Váái! Salta com a criança.

– Pega o Déco! A estrutura começa a se inclinar ligeiramente.

Dora consegue dar o último filho. Escorrega dentro da casa.

– Nãão! Não quero te perder, Dora! Vamos! Dê a mão! A impiedosa chuva aperta. Uma árvore passa ao lado da casa. Porcos e galinhas já haviam desaparecido.

A defesa civil consegue chegar ao local. O atendente, lanternas potentes do carro e nas mãos, puxa as crianças para a rodovia. Ainda consegue ouvir Luiz aos berros com sua mulher.



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