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Centenário de Fátima


Dom Pedro Carlos Cipollini

15/05/2017 | 07:00


A 13 de maio de 1917, três crianças pastoreavam rebanho de ovelhas, pertencente a suas famílias. Por volta do meio-dia, quando rezavam o terço, “viram uma senhora mais brilhante que o Sol” sobre uma azinheira que estava ali perto. Esta ‘aparição’ disse ser necessário rezar muito e convidou-as a virem à Cova da Iria, assim se chamava o local, por cinco meses consecutivos. Na última ‘aparição’, que contou com a presença de 70 mil pessoas, conforme reportagens de jornais da época, a ‘aparição’ disse ser Maria, a mãe de Jesus, e pediu que ali se construísse uma capela.

Fátima se tornou um local de peregrinação, dos mais movimentados da Europa. O fluxo não diminuiu até hoje. Este fenômeno coloca-nos algumas questões que não são simples de responder.

A primeira questão é quanto aos pastorzinhos, os irmãos Francisco e Jacinta (9 e 7 anos), falecidos pouco após as aparições. Canonizados pelo papa Francisco na festa do centenário das aparições. A outra ‘vidente’, Lúcia, faleceu há pouco tempo. Isoladas do mundo, tiveram uma clarividência precisa, sobre certos acontecimentos que futuramente se realizaram? Como conseguiram vencer as perseguições, permanecendo coerentes no relato dos fatos e superando o medo?

Outra questão é relativa ao próprio fato das ‘aparições’. Nós sabemos que a fé não está determinada pelos nossos cinco sentidos: “Bem-aventurados os que não viram e creram”. Porém não podemos negar que existem outras maneiras de ver sem ser pelos olhos. O misterioso mundo interior do ser humano, em grande parte ainda desconhecido pela ciência, é capaz de uma ‘inteligência emocional’ há pouco tempo insuspeita. O fato de a razão não ser capaz de compreender certos fenômenos não a desmerece. Como dizia o filósofo Pascal, o supremo ato de inteligência se dá quando a razão é capaz de reconhecer que existem coisas cuja compreensão a supera.

O julgamento dos acontecimentos envolvendo as aparições de Nossa Senhora de Fátima devem ser feitos a partir do efeito destas aparições. É improvável que um acontecimento que provoca cada vez mais uma adesão e um interesse tão grandes, em um número sempre mais variado e maior de pessoas, seja fruto de um acaso ou ilusão tresloucada. Pelos frutos se conhece a árvore. Os frutos de Fátima são bons, como podem ter nascido de uma árvore má?

A Igreja não coloca a fé nas aparições como necessárias à salvação. São revelações chamadas ‘particulares’, não se impõem à fé dos fiéis. A própria Igreja no começo não incentivou a devoção. Nem as autoridades civis incentivaram. Pelo contrário. Recorde-se que a primeira capelinha construída no local foi destruída por uma dinamite. Somente em 1930 o episcopado português vai reconhecer a validade da mensagem de Fátima, e das ‘aparições’, por estar coerente com os Evangelhos. Mensagem que pode ser resumida como: conversão (Mt 18,3), oração (Mt 26,41) e penitência (Mc. 1,15). Esta de fato é a síntese da mensagem de Fátima e os três verdadeiros ‘segredos’. Como dizia o cardeal Cerejeira: “Não foi a Igreja que impôs Fátima, foi o acontecimento de Fátima que se impôs à Igreja”.

Fátima, na interpretação católica, nos recorda algo importante. A lembrança de que sem Deus o ser humano acaba por destruir a natureza, os relacionamentos e a si mesmo. Fátima nos recorda a primazia de Deus sobre todas as coisas. Fátima nos recorda também o papel de Maria, mãe de Jesus na obra da redenção, papel que ganha realce com o diálogo ecumênico de nível. Num famoso escrito de Lutero sobre o Magníficat, Maria aparece como um reflexo do olhar de Deus, ela não atrai para si, mas leva-nos a olhar para Deus, seu e nosso salvador.

É a intuição desta mensagem que torna Fátima tão atraente aos homens sedentos de infinito. Fátima atrairá sempre os que não se contentam com o material, mas vislumbram algo mais, além do genoma humano.

Dom Pedro Carlos Cipollini é bispo diocesano de Santo André. 



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