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Até que a morte os separe


Rodolfo de Souza

06/04/2017 | 07:00


 Cronista é assim, está sempre de olho nos acontecimentos mais corriqueiros da vida, só para deles tirar proveito e, quem sabe, transformá-los na inspiração necessária para criar um texto bem bonitinho. Este que certamente preencherá o coração escritor antes mesmo de se apropriar do coração leitor. Não lhe falta, inclusive, oportunidade para bisbilhotar o terreno alheio e dele colher, por meio da conversa ouvida, assunto que venha a deitar no papel digital, armadilha estrategicamente disposta ali para bulir com o pensamento do incauto que se propõe a lê-lo.

Mas que feio!

Procure não me entender mal, o amigo que tomar nas mãos estas palavras e censurar o método, uma vez que este escritor não cultiva o hábito de se esconder atrás das portas para ouvir o que se discute na intimidade do outro. Acontece, porém, que dia destes, involuntariamente envolvido num rebuliço de casos, apartes, opiniões, contestações e demais histórias, não tive como não pensar numa crônica que exaltasse o ser humano e sua mania de promover controvérsias.

Discutiam, pois, as pessoas, a intrincada relação marido-mulher, que tem origem lá na pompa matrimonial e finda quando um deles ou ambos se saturam do cativeiro e botam a casa abaixo. E eu, que a tudo ouvia, não pude deixar de pensar no fato de estar cada vez mais escasso no mercado casal que cumpre à risca a determinação da santa madre igreja que manda viverem juntos até que a morte os separe. Pronto, envolvi-me no assunto. Como não podia deixar de ser, claro.

E foi a partir da conversa agitada das pessoas, todas do sexo feminino, o que sem dúvida apimentou ainda mais a questão, que ocorreu-me refletir e escrever sobre a controvertida personalidade humana, esta que passa toda uma vida em busca da felicidade, objeto de desejo impalpável que pode ser facilmente encontrado no sucesso financeiro, que leva ao conforto; na prole sadia a correr e encher de barulho o lar; no próprio casamento quando o amor esparrama pelas beiradas; nas viagens; no encontro com os amigos; no sonho com o relacionamento perfeito... Até mesmo nas mais improváveis situações.

É possível encontrar a felicidade, inclusive, nas pequenas coisas. Tudo depende do tamanho do coração de quem a busca – dirá o monge tibetano.

Mas ali, naquela conversa, o que se viu foi um desabafo lançado ao ar por causa das desfeitas atribuídas ao falecido, como é de praxe. Aquele que minou a relação por causa do amontoado de defeitos que sempre carregou e que, dos quais só agora, depois de separados, a ex-companheira se deu conta. “Tudo culpa dele!”

É provável até que este venha se utilizando do mesmo expediente para lançar, junto aos seus, impropérios contra a mulher que amara e que fora sua um dia. “Tudo culpa dela!”

É este, pois, o quadro que ora se apresenta: o casal de joelhos no altar a proferir o sim que, dentro em pouco, se transformará em não e espalhará estilhaços e rancores que ecoarão, sem piedade, por todos os lados, embora se saiba também que logo serão tocados pelo vento, misturados e confundidos com outros tantos, mundo afora.

É, acho que preciso com urgência de um protetor auricular! Diacho de ofício, este de cronista.



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