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Nacional

Publicado em quarta-feira, 24 de maio de 2000 às 20:59 Histórico

Troca de árvores revela achado arqueológico em SP

A troca de lugar de algumas árvores acabou resultando em um achado arqueológico em pleno centro de Sao Paulo. Durante a reforma que está sendo feita no Parque da Luz, escavaçoes superficiais em um dos canteiros revelaram ruínas dos séculos 18 e 19. Depois de retirada parte da terra, descobriram-se as fundaçoes de uma torre de 20 metros e os vestígios dos dois sistemas de abastecimento de água mais antigos da capital.

O trabalho de pesquisa do local está sendo conduzido desde o início da semana passada pelo Núcleo de Referência Arqueológica da Cidade, que pertence ao Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura. "A descoberta permite verificar a técnica construtiva e também traz referências históricas do cotidiano da cidade ligado ao abastecimento de água", afirma o historiador Luis Soares de Camargo, diretor do DPH.

A torre foi construída entre 1872 e 1875 por determinaçao do entao presidente da Província de Sao Paulo, Joao Teodoro Xavier de Matos, como melhoria para o jardim público. Segundo Camargo, o topo ficava no ponto mais alto da capital e costumava ser utilizado como mirante. "Muitas pessoas subiam ali para observar a cidade", explica. Como nao tinha um nome oficial, em pouco tempo o lugar ganhou o apelido de "canudo do doutor Joao Teodoro".

Os técnicos do DPH planejavam procurar as ruínas da torre, mas nao havia data para o início da exploraçao. "Na época em que começou a remodelaçao do parque, fizemos um projeto geofísico para encontrar as construçoes antigas", esclarece a arqueóloga Marizilda Couto Campos. "Mas nosso trabalho acabou sendo apressado quando os vestígios apareceram por acidente." A equipe pretende usar um radar para localizar o que ainda está enterrado.

Demoliçao - O "canudo" foi demolido em 1901, depois que ficou pronta a Estaçao da Luz. No edifício, bem ao lado do mirante, ergueu-se a torre que até hoje se encontra no local. "As duas passaram a competir arquitetonicamente", diz o diretor do DPH. Obscurecida pelo novo prédio, a obra instalada por Joao Teodoro foi derrubada. De acordo com Camargo, parte do material retirado foi usada posteriormente na Rua José Paulino.

As canalizaçoes de água, que vieram à tona após a retirada de parte da terra, chamaram a atençao da equipe do DPH. O sistema mais antigo da cidade data do século 18 e sabia-se de sua existência apenas por meio de registros históricos. Para transportar água na época, construíam-se canaletas abertas de tijolos a partir das fontes. O líquido seguia até várias partes da cidade a céu aberto, levado apenas pela força da gravidade.

No caminho, enchia chafarizes onde a populaçao fazia o abastecimento das casas. "Como a água corria ao lado das ruas, ficava exposta a todo tipo de sujeira", destaca Camargo. "Todos os anos, no período das cheias, havia epidemias." O modelo foi utilizado até o fim do século 19, quando começou a haver água encanada em residências de Sao Paulo. O duto que fazia o escoamento dos altos do Bexiga até o Parque da Luz reapareceu nas escavaçoes.

Fracasso - Também foi encontrado um dos primeiros tipos de canalizaçao da cidade. Engenheiros europeus instalaram o sistema - que consistia em uma rede de encanamentos compostos por uma mistura de papelao e betume - entre 1868 e 1869. Apesar do uso comum em outros países, a idéia acabou causando polêmica. "O objetivo era substituir o modelo anterior", diz Camargo. "O problema é que nao funcionou."

O material dos canos, adaptado a outra realidade, nao suportou as condiçoes de Sao Paulo. Na mesma época a administraçao municipal instalava os trilhos dos bondes (movidos por traçao animal) e os encanamentos de gás para iluminaçao pública. A trepidaçao causada pelas obras rompia freqüentemente os dutos de betume e papelao. "A Prefeitura havia investido muito dinheiro e houve protestos", diz Camargo.

Embora a pesquisa do sítio esteja no início, a arqueóloga Lucia Juliani encontrou objetos de várias épocas. Entre eles há uma moeda do Império e pedaços de louças, frascos e garrafas, principalmente do século 19. "Há um fragmento de faiança (louça de barro esmaltado) portuguesa que pode ser do século 18 e, portanto, anterior ao parque", afirma. Depois que estiver escavada, a área será recoberta por uma vitrine e permanecerá exposta ao público.



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