Cultura & Lazer Titulo

André Carneiro; fama no exterior

Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC
03/05/2008 | 07:14
Compartilhar notícia
 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


André Carneiro, 86 anos, é o único autor da sua geração ainda escrevendo ficção científica. Vendeu recentemente para a Espanha os direitos para um filme do seu conto Escuridão, publicado nos Estados Unidos em antologia ao lado de ganhadores do Nobel de Literatura. Poeta da Geração de 1945, mantém em sua narrativa uma prosa poética. É também o escritor brasileiro de FC (ficção) mais destacado internacionalmente. O autor canadense Alfred Elton Van Vogt (1916-2000), da geração Golden Age da ficção científica mundial, escreveu que Carneiro “merece a mesma importância de um Kafka ou um Camus”.

Confissões do Inexplicável (Devir, 2007) é o seu quarto livro de contos, um portentoso volume de 600 páginas e 27 histórias, sendo 26 inéditas. Uma raridade se pensarmos em autores de FC. As histórias, além de FC, fantasia, horror e suspense literário, têm elementos autobiográficos e freqüentemente navegam entre os limites da ficção e da realidade.

O tema da ditadura militar e da resistência contra o regime aparece também – Carneiro foi militante da resistência armada contra o regime militar, tinha um quarto secreto abaixo do nível do solo, em sua casa de pedra em Atibaia, mas não gosta de falar sobre o assunto em poucas linhas.

DGABC

Sabe-se que ele relega sua atuação pessoal à insignificância se comparada a uma pessoa com a qual era ligado e que foi baleada, seqüestrou um embaixador, se apossou do cofre do governador Ademar de Barros com cerca de US$ 3 milhões desviados (ação que teve participação da então guerrilheira Dilma Rousseff). Mas Carneiro recorre à “ética” para não contar detalhes. Atualmente vive em Curitiba. Para ele, os preconceitos contra a FC são mera ignorância. Em seu ensaio Introdução ao Estudo da Science Fiction (1967) comenta os que fazem o estilo “não li e não gostei”.

DIÁRIO – O que representa para o senhor fazer parte desta antologia com um conto que tem o futuro pós-nuclear como tema, entre idéias, imortalidade, clonagem, planetas em harmonia?

NDRÉ CARNEIRO – É evidente que um autor sente-se destacado fazendo parte de antologias desse tipo elitista. Já participei de antologias norte-americanas ao lado de ganhadores do Prêmio Nobel, também em antologia Melhores do Mundo (no ano) pela maior editora do mundo, a Putnam, e no Brasil na Antologia do Conto Fantástico, ao lado de Machado de Assis e outros também destacados na antologia do Roberto Causo.

DIÁRIO – O senhor concorda que a ficção científica brasileira nunca foi um gênero literário, isto é, sempre foi relegada pela crítica?

CARNEIRO – O nível cultural brasileiro é baixo, deplorável. O gênero FC e outros foram sempre tratados pelo desconhecimento e pela ignorância de uma critica amadora, única que possuímos.

DIÁRIO – O título do livro de 1941 do austríaco Stefan Zweig, Brasil, o País do Futuro (não é FC) determinou no imaginário nacional um estado de eterna espera pelo desenvolvimento?

CARNEIRO – Já ninguém mais se recorda de Stefan Zweig, que acabou suicidando-se no Brasil. Ele nada sabia do Brasil, nem a língua. Seu livro era uma amabilidade, mas teve muita repercussão na época, fruto da admiração caipira do brasileiro por tudo que tenha um título ilegível como autor.

DIÁRIO – FC é um gênero literário no qual o autor usa a imaginação para contar uma história, ou é somente literatura em que temas do presente são projetados num futuro ou numa experiência sui generis?

CARNEIRO – Você acertou parte de sua suposição: Ficção cientifica é literatura. Em primeira análise pode ser literatura de qualidade, ou literatura inferior, dependendo do autor. Nos meus livros últimos não coloco esse rótulo eivado de preconceitos idiotas. Eu escrevo literatura. Se é boa e permanecerá, o tempo e a crítica darão a resposta.

DIÁRIO – Um tema freqüente em seus contos é o choque do futuro, em particular um futuro pós-hecatombe nuclear. Pode comentar essa preferência temática?

CARNEIRO – Não há propriamente uma preferência. Durante décadas, até hoje, a humanidade chegou a um progresso tecnológico, fantástico em poder e praticamente infinito em violência. No auge da corrida atômica, as maiores potências acumularam o poder de destruição do planeta 300 vezes. Ainda hoje as bombas restantes destruiriam a Terra inteira. Isso constitui a soma fantástica da inteligência humana empatada com a soma imbecil da estupidez. Claro que em minha literatura essa temática teria que se repetir.

DIÁRIO – O senhor também viveu na clandestinidade na época da ditadura. Pode comentar sua trajetória?

CARNEIRO – Nestes anos todos tentei algumas vezes narrar sobre meu quarto secreto, fugas, e do sofrimento com o qual a ditadura nos massacrou. Uma clandestinidade revolucionária ilegal depende da solidariedade de muita gente. E é impossível descrevê-la sem que, aqueles que arriscaram suas vidas para nos proteger, não sejam citados e destacados. A impossibilidade de nomeá-los torna impraticável qualquer descrição. Por isso tenho evitado e terei de continuar deixando oculta a atuação minha e de meus companheiros.




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;