Saúde Os transtornos motores causados pelo Mal de Parkinson
são aliviados por aparelho que envia impulsos ao cérebro

Os portadores do Mal de Parkinson, doença degenerativa e sem cura, convivem com inúmeras limitações que abreviam a qualidade e a expectativa de vida. Em estágio avançado, os sintomas tornam-se insuportáveis. Tremores constantes, rigidez muscular, lentidão dos movimentos, desequilíbrios que provocam quedas e alterações na fala são alguns dos sinais da doença, que hoje acomete cerca de 250 mil brasileiros, segundo o Ministério da Saúde. Suas causas ainda são desconhecidas. Sabe-se que pode ter origem genética, é evolutiva e sua incidência é maior em pessoas acima dos 50 anos.
Apesar de a doença não causar sequelas neurológicas e não comprometer a memória, em casos extremos nem a combinação de altas doses de remédios é suficiente para abrandar os sintomas. Nessas situações é indicada a cirurgia para implantação do marca-passo cerebral, que envia impulsos elétricos a áreas específicas do cérebro. O aparelho, que custa R$ 120 mil, também é conhecido como DBS (Deep Brain Stimulation, ou Estimulação Cerebral Profunda). Em parkinsonianos, a anormalidade na atividade neuronal é reduzida.
A neurologista do Hospital das Clínicas e coordenadora do ambulatório de Parkinson da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), Margarete Carvalho, faz ressalvas quanto às expectativas geradas pelos pacientes e familiares. "O procedimento não é curativo, e sim paliativo. O paciente continua com tratamento multidisciplinar e medicamentoso. Mas, dependendo da fase da doença, otimizamos o uso de remédios e há aumento da qualidade de vida."
Em vídeos, a médica expôs a diferença dos movimentos feitos por pacientes com o aparelho ligado e desligado. As alterações são evidentes. O semblante facial ganha vida, há maior agilidade para caminhar e os tremores em repouso são quase zerados. A cirurgia é feita com o paciente acordado e anestesia local. É preciso abrir orifício no crânio para acoplar eletrodos no local da lesão. Eles carregam neurotransmissores, passam por trás da cabeça e são ligados à bateria na região do tórax.
SUPERAÇÃO
O ex-professor de História de Santo André Sérgio Salerno, 65 anos, descobriu a doença há 15 e atualmente faz acompanhamento médico no ambulatório da FMABC. Ele passou pela cirurgia em agosto. Hoje, mesmo com grande instabilidade postural e mobilidade reduzida, consegue caminhar sem ajuda. Antes, era preciso usar cadeira de rodas. "É difícil conviver (com o problema), mas já foi pior. Passei por adaptações. Faço fisioterapia e conto com a ajuda da esposa." A saudade de lecionar equipara-se ao desejo de poder sair à rua sem ajuda. Mesmo assim, não reclama e faz questão de tentar realizar atividades rotineiras sem pedir auxílio.
Ao contrário do ex-professor, a empregada doméstica Maria Aparecida dos Santos, 54, de Ribeirão Pires, começa a se acostumar com a doença, descoberta em 2010. Os sintomas ainda são brandos. A morte repentina do marido, dois meses depois de ter recebido o diagnóstico, acarretou quadro de depressão. No trabalho e no amor dos quatro filhos, busca amparo para aumentar a chance de recuperação. "Na época, o médico disse que o trauma agravou os sintomas. Fui pessimista. Achei que iria morrer logo." Hoje, valoriza sua independência e não abre mão de morar sozinha. No trabalho, ganhou a compreensão da patroa.
Atualmente cerca de 80 pacientes são atendidos pela equipe multidisciplinar da FMABC. Ontem, o ambulatório organizou o primeiro mutirão de atendimento gratuito do Grande ABC direcionado ao paciente com Parkinson e também aos cuidadores.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que 1% da população acima dos 65 anos seja vítima da doença.
Sintomas silenciosos podem indicar doença
Geralmente as pessoas suspeitam do diagnóstico da doença quando tem início a discinesia, que são os movimentos involuntários. Mas, segundo a neurologista do Hospital das Clínicas e coordenadora do ambulatório de Parkinson da FMABC, Margarete Carvalho, esse estágio já indica grande comprometimento da função neurológica. "Quando há manifestação dos sintomas motores, como rigidez muscular e tremores, já há perda de 70% a 80% dos neurônios. Os sintomas silenciosos começaram há seis ou sete anos. É nítido que quem faz tratamento precoce garante maior qualidade de vida", explica.
É raro, mas a doença pode se manifestar na juventude ou na fase adulta. Por isso, é fundamental ter atenção com os sinais que o corpo emite antes da aparição dos sintomas motores. Exemplos: diminuição do olfato e da voz, dificuldade para engolir, redução da mímica facial, pele e cabelo oleosos, distúrbios do sono, lentificação dos movimentos das mãos (caligrafia reduzida), redução dos movimentos automáticos (como piscar os olhos, caminhar, falar), cãibras noturnas, intestino preso e depressão.
Uma curiosidade é que a grande maioria dos parkinsonianos são magros, por causa do alto gasto energético provocado pela rigidez da musculatura.
RECOMENDAÇÕES
Exercícios físicos adequados às limitações do paciente e sessões de fisioterapia são importantes aliados dos portadores de Parkinson. A prática diminui a progressão da doença e os sintomas da patologia degenerativa. Aos poucos, o paciente ganha amplitude dos movimentos e aprimora o equilíbrio. É recomendado realizar, pelo menos, duas vezes por semana.
No Grande ABC há espaço para que portadores da doença e cuidadores tirem dúvidas e busquem informações. O Gappa (Grupo de Apoio aos Portadores de Parkinson) funciona provisoriamente na Paróquia da Igreja Matriz de Mauá. O fundador, conhecido como João Pedrão, 63, convive com a doença desde os 12 anos. Atualmente o grupo aguarda parecer da Prefeitura sobre doação de terreno para criação de sede permanente.
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