Eles estão por todos os lugares e já viraram moda entre boa parte dos brasileiros. Em forma de bonecos em preto e branco, coloridos, gordos ou magros. Além dos adesivos da ‘família feliz', estampados nas traseiras de milhares de carros em todo Brasil, também é comum flagrar veículos expondo informações gratuitas para potenciais bandidos, que podem descobrir facilmente o local de trabalho de um pai de família, onde os filhos estão matriculados ou fazem academia. Um simples adereço pode dar subsídios à criminalidade e colocar a vida de famílias em risco? Para especialistas, sim. Para a Polícia Militar, não.
O presidente da ONG (Organização Não Governamental) Movimento Viva Brasil e especialista em segurança, Bene Barbosa, condena qualquer exposição de informações que podem fazer menção ao poder aquisitivo de famílias.
"Acho bonito, mas não aprovo o uso. As pessoas precisam evitar dar informações de graça. Infelizmente no mundo em que vivemos, isso corresponde a risco", sustentou Barbosa.
Na visão do especialista, agindo desta forma o motorista pode dar margem para ocorrência de dois crimes: sequestro relâmpago e falso sequestro. Além disso, o acessório pode servir como estratégia para bandidos. "Se alguém mal intencionado tiver, por exemplo, um informante dentro da polícia, é possível que a placa seja rastreada até achar o telefone e endereço da família."
Esse tipo de risco também ameaça quem mora longe dos centros urbanos, onde a moda se alastrou com rapidez. Segundo Barbosa, a interiorização do crime tem preocupado moradores que moram fora das grandes capitais e o uso dos adesivos pode agravar o quadro. "A ocorrência de assaltos e sequestros relâmpagos está seguindo para as cidades menores, exatamente onde a segurança pública é menor. Por isso é importante se prevenir."
Barbosa cita alguns exemplos de ‘abusos' na oferta de detalhes pessoais de famílias inteiras. "Já vi em carros até fotos de filhos com os nomes embaixo. Ou então adesivos da escola onde o filho estuda. Isso é gravíssimo", orientou.
OS ADEPTOS
Entre os usuários, o alerta dos especialistas parece não ser suficiente para mudar de ideia ou provocar reflexão. Com objetivo de celebrar a união de seus parentes, Rosângela Ribas, 51 anos, de Santo André, afirma que não vê risco na nova mania dos personagens em boneco. "Meu filho colocou no carro dele, achei bonitinho e comprei em homenagem à minha família. Não acho que há problema ou ofereça riscos. Ninguém sabe meu nome, nem nada", disse a dona de casa, que pagou R$ 0,80 em cada um dos nove adesivos estampados na tampa do porta-malas do carro.
Redes sociais são mais perigosas
A Polícia Militar do Estado de São Paulo minimizou os efeitos provocados pelo uso de adesivos em veículos.
De acordo com o Tenente Cleodato Moisés do Nascimento, porta-voz do Comando de Policiamento da Capital, desenhos estampados na traseira dos carros não trazem tantos riscos quanto apontam especialistas. Para o tenente, há outras formas de exposição que são consideradas mais graves pela corporação.
"Hoje as redes sociais trazem até fotos e mostram muito mais do que um simples adesivo. O que não recomendamos é divulgar o nome das pessoas ou informações sobre sua profissão. O desenho em si não tem esse risco como estamos imaginando. Eles não são determinantes para a ocorrência de um possível sequestro."
Desde a série de ‘bebê a bordo' uma coleção de adesivos para carros, motos e caminhões não fazia tanto sucesso. Especialistas em segurança há muito recomendam a não utilização de adesivos que denotem informações sobre lugares que a família frequenta ou hábitos pessoais.
De acordo com a Polícia Militar, isso, de fato, pode ser prato cheio para marginais. "As pessoas precisam se prevenir. O adesivo do ‘bebê a bordo' é aceitável, mas colocar o nome da criança pode ser um risco. A PM orienta que quanto menos informação exposta, melhor. Não temos estudos que comprovem o aumento de crimes nestes casos. Mas é um risco certo para falsos sequestros, por exemplo, se divulgarem à toa o nome e a profissão da pessoa", esclareceu.
No caso da advogada de São Bernardo, Andrea Vellucci, 37, a influência das crianças foi decisiva para aderir à mesma mania. "É difícil estar com todos juntos. Por isso resolvi unir oito pessoas e meu cachorro. Não vejo riscos e usamos até no computador", revelou.
COMÉRCIO
Quem tem motivo de sobra para festejar a febre dos adesivos são os comerciantes. A alta no faturamento da banca de jornal de Francisco Dias, 63, na Avenida Higienópolis, em Santo André, já atingiu 30% nos últimos dois meses. "O charme é a ‘família feliz'. os outros adesivos para carros estão encalhados."
O comerciante comemora os resultados. O aumento no lucro mensal é de R$ 1.000. Vendendo por R$ 1 cada personagem, o comerciante paga R$ 0,18 do fornecedor. Em média, o jornaleiro vende de 50 a 70 bonequinhos por dia, geralmente procurados por casais.
A moda que agora inclui até animais de estimação também fez disparar as vendas de uma empresa da Zona Leste de São Paulo. O incremento nos lucros chegou a 50% no mês. A oportunidade de vender pela internet também ajudou a alavancar os negócios da empresa, que vende 7.000 personagens todo mês. O proprietário, Germano Spadini, é cauteloso. "Agora diminuiu. Em outubro vendemos 11.000. Sabemos que tem prazo para acabar essa alegria."
Idealizador multiplica orçamento em Florianópolis
Primeiro veio Santa Catarina, depois logo ganhou os carros de motoristas de Rio Grande do Sul e do Paraná. A moda dos bonequinhos da ‘família feliz' começou em meados do ano passado na capital catarinense e continua fazendo a cabeça dos brasileiros.
A serigrafia Serigel, de Rogério Raulino, é responsável pela criação dos personagens que multiplicaram o lucro mensal da empresa no último ano: de R$ 8.000 para R$ 50.000. De acordo com o proprietário, a ideia nasceu sem grandes pretensões, quando seu filho, também funcionário, começou a rabiscar os primeiros bonecos. "Não achamos que tomaria tamanha proporção. Todos gostaram e logo começaram os pedidos para fazer separadamente. A partir daí as vendas dispararam." O boom na comercialização fez o quadro de funcionários passar de oito para 31 em quase um ano. Sobre a discussão das últimas semanas, Rogério é categórico. "A violência existe em qualquer lugar. Está se perdendo a união das famílias e a sociedade está alienada."
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