
A pouco mais de cinco anos de realizar sua primeira Olimpíada, o Brasil ainda está atrasado em infraestrutura e acessibilidade para portadores de necessidaes especiais aos centros esportivos. A constatação foi feita por atletas da Seleção Brasileira Paraolímpica de Natação durante sessão de treinos no Complexo Esportivo Lauro Gomes, em São Caetano.
A cidade foi escolhida para sediar os treinos visando o Parapan de Guadalajara (México), em novembro, segundo o coordenador-técnico do Comitê Paraolímpico, Murilo Barreto, por ser uma das poucas no País, no momento, com boas instalações.
"Os atletas vêm de vários lugares do Brasil. A cidade foi escolhida pela localização - está perto dos aeroportos -e e porque a acessibilidade às dependências é ideal para os atletas", disse.
Acostumado a rodar o Brasil com o grupo, Barreto descreveu a situação. "Em São Paulo, a piscina do Ibirapuera não pode ser usada porque está em reforma e, em Salvador, aterraram as duas piscinas (25 m e 50 m) para reconstrução da Fonte Nova. As piscinas tinham sido reformadas há uns três anos", desabafou.
De acordo com Murilo Barreto, os atletas com ranking ganham por mês do Governo Federal cerca de R$ 2.500 do bolsa-atleta, os que não têm, R$ 350. O programa atende 909 atletas.
"O bolsa-atleta já é uma conquista, mas ainda falta melhorar a infra-estrutura pública", recomenda.
O cadeirante Roberto Alcalde Rodrigues, 19 anos, campeão Mundial Júnior nos Estados Unidos em 2008 nos 100m costas, aponta que não só o Poder Público precisa investir em infraestrutura e melhorar o acesso às praças esportivas.
"Moro em Florianópolis. Mesmo sendo uma das melhores cidades do País, tem uma universidade lá (não quis citar o nome) em que o acesso para decifientes é muito precário. Há problemas de acesso em todo o País. A gente sente isso porque está sempre competindo em várias cidades. Parece que é preciso ver para sentir que é preciso fazer", critica.
Procurado desde o dia 8, somente na sexta-feira o Ministério do Esporte informou que um conjunto de medidas voltadas para o esporte paraolímpico está contemplado na Medida Provisória 502/210, aprovada no início do mês pela Câmara dos Deputados e pelo Senado.
Como passou por alterações no Senado, o texto agora terá de voltar à Câmara e, segundo o ministério, assim que a nova legislação estiver em vigor, iniciará parcerias com municípios e entidades esportivas para a implantação do programa Cidade Esportiva.
Sem dar maiores detalhes, já que respondeu aos questionamentos por e-mail, apesar do pedido de entrevista da reportagem, o ministério informou que o programa visa integrar e qualificar as iniciativas e estruturas que já existem, mas que funcionam desconectadas de um projeto nacional de desenvolvimento do esporte de alto rendimento, desde a base até o nível olímpico e paraolímpico.
Conforme o ministério, para garantir que as cidades executem o programa, o Governo Federal se dispõe a colaborar financeiramente com a construção, modernização e adaptação do centros esportivos, que deverão seguir normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), de entidades ligadas ao esporte e órgãos governamentais responsáveis por acessibilidade.
Ainda segundo o ministério, as instalações e projetos com diferentes níveis de complexidade precisarão receber certificação a partir de critérios a serem definidos na regulamentação da lei, após aprovação no Senado e sanção presidencial.
Comitê começa a preparar nova geração de paraatletas
Roberto Alcalde Rodrigues é um dos atletas da nova geração que está sendo preparada para o futuro e que deverá participar do Parapan de Guadalajara, em novembro.
Quarto colocado em sua especialidade (100m peito) no Mundial Absoluto (sem limite de idade) da Holanda, em 2010, ele conta que está realizando um sonho por integrar a Seleção Paraolímpica juntamente com atletas já consagrados como André Brasil, Carlos Farremberg, André Dias e Adriano Gomes Lima.
Ele esteve com a seleção em São Caetano há poucos dias - o grupo inicia preparação para o Parapan-Americano - e conta que começou a praticar basquete e que depois mudou para a natação porque já não queria mais participar de esportes coletivos. "Mudei porque alguns não levam muito a sério. Sempre fui bastante competitivo, então decidi trocar de modalidade porque na natação só dependo de mim", destacou.
Rodrigues iniciou a carreira de nadador em 2006 e sua primeira conquista foi o primeiro lugar no Circuito de Maratonas Aquáticas de Santa Catarina, em 2007. Com a Seleção Brasileira ainda não participou de nenhuma competição. Todas as conquistas foram pelo clube que representa, em Florianópolis.
No entanto, não vê a hora representar o País em Parapans ou paraolimpíadas no futuro. "É o início de um sonho. Aqui estão os melhores do mundo. Me incentivam muito. Estou aprendendo muito, me fazem acreditar que é possível conquistar qualquer coisa, que um dia também posso ser campeão mundial", disse.
A equipe de natação do Comitê Paraolímpico tem 21 atletas, dos quais apenas um passou a ser portador de necessidades especiais na infância após um acidente. Os demais são congênitos.
Todos os anos, os atletas passam por exames quando se apresentam à Seleção. Atualmente, os exames são feitos no Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício do Instituto do Sono, ligado à Escola Paulista de Medicina de São Paulo. Os exames consistem a avaliação da composição corporal, potência aeróbica e cardiorrespiratória dos atletas.
A Seleção se reúne novamente em abril para novos treinos e duas competições internacionais. Em julho o grupo volta a treinar novamente em São Caetano e depois viaja para o Canadá, para participar do Pan Pacific, em agosto. Os atletas são escolhidos para a seleção de acordo com o desempenho em seus clubes, a exemplo do que é feito em outros esportes, garante Murilo Barreto, coordenador-técnico da equipe de natação do Comitê Paraolímpico.
O foco da Seleção este ano é o Parapan. A meta do Brasil é ficar entre os três melhores das Américas.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.