Grita, chora, canta, torce e, acima de tudo, ama. Em geral, é assim que se comporta quem tem um grande ídolo. No entanto, tem gente que não para por aí. Pouco antes de completar 15 anos, Letícia Robles da Silva, de Santo André, quis externar sua paixão pelo trio de irmãos KLB fazendo tatuagem igual a de um dos integrantes.
Agora, aos 17, garante não se arrepender do impulso. "Gosto deles desde quando tinha 7 anos", explica. Mas essa não foi a única loucura. Já enfrentou mais de três horas de transporte público para tentar vê-los na porta de uma emissora de TV.
Em dezembro passado, ela e uma amiga saíram de casa às 5h30 para assistir a um show em Caraguatatuba, que começou às 21h30. Depois que a apresentação acabou, por volta da meia-noite, as meninas tiveram de esperar até 6h30 para pegar o ônibus de volta. Mas será que tanto sacrifício vale a pena? "Sempre. Eles reconhecem nosso esforço e nos dão carinho", afirma Letícia.
A opinião é compartilhada por Viviane Dezzotti, 15, de Santo André, fã de Hevo 84 e Fresno. Para ver as bandas num festival, chegou às 7h30 no local e lá ficou até 22h30 sem comer nada nem ir ao banheiro para não perder o lugar. "É uma sensação indescritível. Identifico-me muito com as músicas deles", fala a garota, que já conversou pessoalmente com a galera da Hevo 84.
Na opinião de Viviane, cada pessoa tem o próprio jeito de demonstrar a admiração. Aliás, ela não aceita que os ídolos sejam criticados. Já acabou com uma amizade porque a amiga não parava de falar mal da Fresno. "É como se estivessem me ofendendo. Se não gosta, precisa respeitar. Defendo essas pessoas porque me fazem bem."
INFALÍVEL? - Se há algo do qual Kathleen dos Santos Silva, 17, de Santo André, se arrepende é ter fingido desmaiar em um show. Ela é apaixonada pela Fake Number, Mash, Fresno e NX Zero. "Diziam que se eu fosse para a enfermaria, coseguiria ver os artistas. Não adiantou nada", diz.
Entre as aventuras bem-sucedidas estão duas invasões de camarim. Em uma delas, conheceu Elecktra, da Fake Number. "Fiquei boba. Não acreditava. Muita gente queria estar no meu lugar."
Tem de ter limites
Gostar muito de um artista, querer saber tudo sobre ele, ir aos shows e se emocionar ao vê-lo; tudo isso é absolutamente natural, principalmente na adolescência. Essa é uma forma de buscar modelos de comportamento, alguém em quem se espelhar para desenvolver a própria identidade, segundo especialistas.
Entretanto, não dá para exagerar. "Torna-se doença ao interferir na vida do fã, quando atrapalha o sono e o desempenho na escola, por exemplo", explica Diego Bragante, psicólogo especialista em adolescentes.
Não dá para viver em função do ídolo, de acordo com a psicóloga Maria Regina de Azevedo, da Faculdade de Medicina do ABC. Fora do palco, tem a própria rotina, família e problemas, como todos. "Não tem defeito porque é idealizado. O fã esquece que ele é de carne e osso."
Dá para imitar o artista, usar as mesmas roupas e adereços. O que não pode é tentar adotar a mesma personalidade, pois assim não se constrói a própria. Por isso, se o exagero tomar conta, é preciso buscar ajuda.
Kathleen Silva concorda que o excesso faz mal. "Não dá para se jogar na frente do carro dele. Às vezes, a gente faz coisas por impulso, mas precisa ter consciência das consequências."
Trabalheira nunca tem fim
Quem segue um ídolo já sabe a trabalheira que dá. É preciso muita paciência e disposição para ficar horas embaixo do sol, enfrentar filas intermináveis e passar sede e fome. A dica da tiete Letícia Robles da Silva é acompanhar a agenda dos artistas pelo site oficial. "Às vezes, eles entregam onde vão estar pelo Twitter", afirma.
Esses não são os únicos desafios para os quais os fãs devem se preparar. Nem sempre o ídolo corresponde às expectativas. Letícia lembra que, certa vez, na porta de uma emissora, ficou esperando o KLB por muitas horas. Na saída da gravação, só um dos integrantes parou o carro para conversar com as garotas que lá estavam. "Fiquei decepcionada porque cheguei bem cedo. Passei horas no sol", conta. Mas Letícia entende que nem sempre o ídolo está bem para atender o público.
Outra missão complicada é convencer os pais a ir aos shows, programas de rádio e TV, ou outro lugar no qual os ídolos estarão. Nesse caso, o melhor é provar para os adultos que já é responsável e não fará nada que possa ser arriscado. "Antes todos da minha família me criticavam. Agora, já se acostumaram", diz Viviane Dezzotti.
Paixão fica após fim da carreira
Lara Gibelli dos Santos, 11 anos, de Santo André, é alucinada pelo RBD desde que a novela mexicana Rebelde estreou no Brasil. Coleciona pôsteres, roupas, calçados, álbuns de figurinhas, entre outros objetos dos ídolos. "Tenho paixão muito grande, não sei explicar."
Imagine como ficou quando descobriu, em agosto de 2008, que a banda iria acabar. "Vi pela TV e não acreditei. Fiquei triste e chorei muito", conta. Mas Lara superou a notícia e, agora, fica feliz em acompanhar a carreira solo dos seis integrantes.
No início do mês, esteve no show da Anahí, em São Paulo. "Não sou muito de me emocionar, mas na hora não teve como. Foi um dos meus sonhos realizados", afirma.
Assim como Lara, muitos fãs têm de lidar com o fim da carreira ou morte de ídolos. Mas quem disse que eles desaparecem? Os trabalhos que realizaram - músicas, filmes - ficam eternos. Prova disso são Elvis Presley, Michael Jackson, Beatles, Mamonas Assassinas, entre outros, que continuam a ter canções tocadas nas rádios e a fazer sucesso, inclusive entre as novas gerações.
"O legado está mais vivo do que nunca. As pessoas têm mais acesso às músicas e vídeos. Dificilmente daqui a 100 anos não vão saber quem MJ foi", acredita Kevin Mendelsohn, 28, que mantém comunidade de fãs do Rei do Pop.
O ídolo de Pe Lu é Jimi Hendrix
Apesar da pouca idade, Pe Lu, 19 anos, guitarrista da Restart, reconhece o peso da influência que os ídolos exercem sobre os fãs. "Você acaba virando referência para essa galera. Por isso, tem de tomar cuidado com atitudes e palavras." Ele até se preocupa com o que pensam sobre a banda, mas só leva em conta críticas construtivas.
O importante, para ele, é se sentir bem com seu estilo.
E quem já não curtiu muito alguém? Desde a infância, um dos ídolos de Pe Lu é o guitarrista norte-americano Jimi Hendrix, mas garante que nunca fez loucuras por ninguém. Como o pai é músico e a mãe é atriz, sempre conviveu no meio de artistas. Apenas, no início da adolescência, era fascinado pelo bruxo mais famoso do cinema. "Adorava. Até já me vesti de Harry Potter. Acho bacana ter essa fase. Faz você conhecer novas pessoas."
Agora, como ídolo teen, Pe Lu fica impressionado com as loucuras que algumas meninas fazem. "Nossas fãs são bem frenéticas. Ficam horas em filas para nos ver e, não sei como, descobrem onde estamos", diz.
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