Sem notificar o responsável pela obra, três funcionários da Prefeitura de Mauá demoliram na manhã de ontem as paredes de uma casa em construção em área invadida na Rua dos Abacateiros, no Jardim Zaíra 5. A residência iria abrigar a família do serralheiro Renato Alves dos Santos, 23 anos. No ano passado, a administração municipal procedeu desta maneira para coibir outras construções irregulares. Procurada, a Prefeitura de Mauá não se manifestou sobre o ocorrido até o fechamento desta edição.
"Ninguém me avisou de nada. Iria terminar a casa até a próxima semana, faltavam uns 200 blocos. Gastei mais de R$ 4.000 em material, e não tenho mais condições de pagar o aluguel da minha atual residência", lamentou Santos, às lágrimas, enquanto olhava desolado os restos de blocos.
Santos foi pego de surpresa pela demolição. Na manhã de ontem, depois de encomendar material para a obra, o serralheiro, que mora no bairro São Mateus, Zona Leste da Capital, seguiu para a Rua dos Abacateiros, para visitar a construção. Quando faltavam poucos metros para chegar ao local da obra, os vizinhos o avisaram que o imóvel fora derrubado instantes antes da sua chegada.
Segundo os vizinhos que testemunharam a demolição, os funcionários da Prefeitura apareceram no local por volta das 9h. Munidos de marretas, eles colocaram abaixo as paredes da obra em meia hora, justificando que a destruição era necessária pelo fato de o imóvel ser irregular.
O serralheiro, agora, planeja se mudar para a casa da mãe, também moradora do Jardim Zaíra 5. Mas ele está com medo da Prefeitura também demolir o imóvel. "Não dá para confiar em ninguém. Vai que eles decidem me tirar de lá também", desabafou.
TRUCULÊNCIA - Moradores do bairro afirmam que há cerca de quatro meses, a Prefeitura intensificou a fiscalização contra as novas moradias no local. Semanalmente, fiscais da Secretaria de Habitação percorrem as ruas do bairro. Sem apresentar documentos, eles ameaçam com o confisco de materiais e a demolição de construções.
O clima de pânico contaminou os vizinhos de Santos. "A gente vai procurar a Prefeitura para saber o porquê de fazer isso. Ninguém explica nada", disse o pai de santo, Fabiano Silva Gabriel, 34.
Três ações semelhantes ocorreram no ano passado
No ano passado, em três ocasiões, a Prefeitura de Mauá demoliu partes de casas sem comunicar previamente os proprietários dos imóveis. Mesmo casas com a documentação em dia não escaparam do ataque dos funcionários da administração municipal.
No dia 6 de novembro, a residência do técnico em segurança do trabalho Antonio Célio Leite, no Parque das Américas, teve parte de uma parede e o telhado da área de serviço derrubados, sob a alegação de que a obra fora executada em área invadida. Na ocasião, a mulher de Leite, Cleidiane, 28 anos, grávida de sete meses, foi atingida por uma telha.
Dez dias depois, no Jardim Primavera, a mesma justificativa foi usada na demolição da garagem da casa do pescador Daniel Francisco de Souza. Uma caminhonete que estava no local foi rebocada para o pátio da Prefeitura.
No mês seguinte, no Jardim Zaíra 3, a casa do vendedor Gino Pereira de Lima teve duas paredes derrubadas a marretadas. A demolição só foi paralisada quando ele apresentou a escritura do imóvel.