
Muito mais cumplicidade. Essa é a principal característica que Priscila Sanches, 27 anos, vê em seu namoro com Alan Mazzoleni, 30, deficiente físico. Há quatro anos ele sofreu um acidente de carro em São Bernardo e ficou tetraplégico, perdendo os movimentos dos membros inferiores e superiores. Um dia antes do acidente, os dois pretendiam "ficar", porém o encontro acabou não acontecendo e eles só começaram a namorar depois da fatalidade.
"A Pri ficou me ajudando, me dando força e acabou acontecendo", lembra Alan, que diz que a conversa sempre foi o ponto chave do seu namoro. "A gente conversa muito. Temos que falar de tudo", diz.
Por ser um namoro "diferente", a família ficou insegura quanto ao casal. "Bateu um medo na minha mãe", afirma Priscila. "Ela achava que eu estava misturando amor com dó, mas eu tinha certeza do que eu queria e, com o tempo, ela viu que nosso namoro não era um bicho de sete cabeças".
No começo, a maior dificuldade no namoro era conseguir ter momentos de intimidade. "A gente não conseguia sair sozinhos, só saíamos com a galera", explica Alan, que no início precisava da ajuda de pelo menos dois amigos para entrar e sair do carro. "A grande questão era a dependência, hoje o problema é a acessibilidade". O casal explica que não pode freqüentar determinados lugares por não serem preparados para receber deficientes - não há banheiros especiais, rampas de acesso ou vagas reservadas. "Hoje, tudo o que a gente faz tem que ser bem planejado antes", completa Priscila.
O casal nota que as outras pessoas têm muito mais curiosidade do que preconceito em relação a eles. "Todo mundo olha pra gente, mas de várias formas - alguns com preconceito, outros com curiosidade e outros admiração", aponta Alan.
O mesmo ponto de vista é dividido por Denise Ferreira, 25 anos, cadeirante - como a maioria dos deficientes físicos gosta de ser chamado. Há oito anos, Denise namora com Vagner Di Folco, 26. Há sete anos, eles sofreram um acidente de carro juntos. Ele tentou fazer uma ultrapassagem mas acabou perdendo o controle do veículo, que capotou. Denise ficou tetraplégica e Vagner não sofreu nenhuma lesão grave. "Psicologicamente, ele ficou pior do que eu", afirma Denise.
Denise também reclama da falta de acessibilidade em determinados lugares, mas afirma que não deixa de sair por causa disso. "A única coisa que acontece no nosso namoro é que ele tem que fazer mais coisas do que eu. Ele vem mais na minha casa do que o contrário, por exemplo", aponta.
Apesar das dificuldades, Denise acredita que seu namoro não é diferente dos outros. Para ela, inclusive, existem mais pontos positivos. "Como a gente sofreu o acidente juntos, a gente ficou muito mais próximo. Existe mais cumplicidade porque passamos por tudo juntos. Tivemos que aprender tudo de novo e ficamos mais próximos", afirma.
Para Alan e Priscila, a deficiência também não atrapalha nem o relacionamento nem a vida a dois."Eu não sou nem coitado nem herói. Eu sou normal, mas tenho algumas dificuldades. Eu faço muito mais coisas do que muitas pessoas que andam", diz Alan, que está sempre de alto astral. "Quando duas pessoas se gostam e se completam, elas conseguem vencer tudo", diz.
O casal pensa em se casar e, para os curiosos, afirma que é possível ter uma vida sexual normal, sim! A única diferença é que muitas vezes é necessário tomar alguns remédios e o estímulo ajuda bastante nessas horas!
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