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Vila Socialista é marca da resistência

Edmilson Magalhães/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Fábio Munhoz
Do Diário do Grande ABC

18/04/2011 | 07:39


Carlos Lamarca, Che Guevara, Leon Trotsky, Engels, Karl Marx e Vladimir Lênin. Pessoas que entraram para história pela participação nas revoluções cubana e russa, pela literatura esquerdista ou pela resistência a ditaduras militares. Estes nomes, que poderiam fazer parte de uma biblioteca, batizam os nomes das ruas da Vila Socialista, em Diadema.

O bairro, que teve origem após ocupações realizadas no início da década de 1990, hoje dá sinais de urbanização. Conjuntos habitacionais da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) e casas de alvenaria. No entanto, nem todas as residências possuem acabamento. Algumas destoam pela beleza e sofisticação entre as casas humildes.

Sem espaço para expansão no solo, muitos moradores optaram pela verticalização. Entre as ruas do bairro é comum verificar residências estreitas, mas com três andares. As vielas têm alto fluxo de passageiros e concentração de comércios. Pizzarias, salões de cabeleireiros e mercadinhos são algumas das opções de serviços. As construções são dispostas ao redor da escola estadual que leva o mesmo nome da vila.

Moradores mais antigos das redondezas lembram com nostalgia das características da vila. "Fui um dos primeiros a chegar aqui. Isso tudo era uma montanha com eucaliptos. A gente saía para caçar sabiás e pombos com espingardas", relembrou o carreteiro Herivelto Tadeu Costa, 57 anos.

Morador há 40 anos, ele avalia que o bairro, apesar de simples, recebeu muitas melhorias ao longo dos anos. "Antigamente só se chegava aqui de jipe. Tínhamos que andar alguns quilômetros a pé para conseguir pegar um ônibus para Diadema", contou.

Ex-vereador e líder comunitário, Manoel Boni conta que o nome Vila Socialista foi escolhido pela luta das famílias que ocuparam o local e protagonizaram batalhas sangrentas com o poder público (leia reportagem abaixo). "Em uma assembleia, votamos o nome da vila. A outra opção era Vale do Rio Doce, mas Vila Socialista foi a vencedora devido à posição ideológica dos acampados."

 

PROBLEMAS

Entre as críticas mais comuns dos moradores estão a sujeira nas ruas e a falta de policiamento. "Tem muito assalto por aqui. Eu mesma já fui assaltada seis vezes", contou a comerciante Zina Oliveira, 49. Outro problema apontado pela vizinhança é a presença de traficantes e vendedores de entorpecentes.

 

 

Apesar da história, muitos desconhecem passado de lutas

 

"Karl Marx? Não sei quem foi, não", disse uma moradora da Vila Socialista ao ser indagada sobre o escritor que batiza uma das ruas do bairro. "Acho que é Vila Socialista por causa da escola, né?", tentou a dona de casa Rosemari da Silva, 25.

Apesar de não conhecer os detalhes, a dona de casa Maria Auxiliadora Vieira, 57, chegou mais perto. "Acho que tem este nome porque aqui é como se fosse uma associação. O que eu sei é que, no início teve uma guerra sangrenta aqui, inclusive com mortes", arriscou.

Mesmo com o histórico de batalhas pelo direito à moradia, diversos moradores desconhecem as origens combatentes. O ex-vereador e líder comunitário Manoel Boni reconhece a despolitização do bairro. "Hoje o povo não é mais engajado. Um ou outro morador que é interessado em manter a mobilização", avalia.

Boni revela alguns problemas enfrentados por moradores nas unidades da CDHU. "Tem companheiros que não conseguiram pagar os apartamentos e foram despejados." Segundo ele, nos últimos anos houve aumento no valor da mensalidade cobrada aos moradores. "Tem gente que pagava direito, mas depois do aumento não conseguiu mais e vai ser despejada." Questionado sobre a realização de manifestação, Boni responde desanimado: "Depende da mobilização e da disposição do pessoal, né?".

 

Batalha entre civis e militares vista no Brasil inteiro

 

Ademir Medici

 

São duas histórias que se complementam e que têm por cenários bairros antigos de Diadema: a história da ocupação de uma área no bairro Inamar, na Avenida Nossa Senhora dos Navegantes, no espaço onde está o campo de futebol do Jardim Inamar, episódio registrado em setembro de 1990; e a história da construção de um conjunto habitacional, pelo governo do Estado, no bairro Conceição, na divisa com o bairro Serraria.

 

HISTÓRIA 1

Cerca de 2.500 pessoas ocupam um terreno de 240 mil metros quadrados pertencente a Pedro Simões Filho. Ali é instalada a Vila Socialista, nome derivado de uma facção política chamada Convergência Socialista.

O ápice do movimento ocorre durante a ação de reintegração de posse. A tropa de choque da Polícia Militar avança e é rechaçada com pedras.

Bombas de gás são atiradas sobre os ocupantes. Duas pessoas morrem, 47 ficam feridas e o vereador Manoel Boni perde a mão direita e tem a audição afetada com gravidade.

As cenas ganham manchetes, tem ampla cobertura pelo Diário e outros jornais, rádios e TV. E o ato chama a atenção para o problema habitacional de Diadema e mostra a disposição das famílias em lutar por um teto, mesmo que simples. Terão êxito.

 

HISTÓRIA 2

É o desdobramento da ocupação primeira; a solução encontrada foi a desapropriação de área para a construção do conjunto habitacional no bairro Conceição.

O governo Estadual desapropria e ergue o conjunto, onde está aquela que podemos chamar de a nova Vila Socialista, que hoje conta com equipamentos públicos importantes como a EE Vila Socialista, em dois andares e com 18 salas de aula.

 

ANTECEDENTES

O bairro Conceição da Vila Socialista ocupa parte da primitiva Vila Conceição, aquela loteada em duas partes, nos anos 1920 e 1940 e que, no mapa atual de Diadema, estende-se por três bairros: Centro, bairro Conceição e Serraria.

A Vila Socialista localiza-se ao lado de loteamentos como o Parque Real, com processo oficial de 1971, e Vila Pedroso, que é um reloteamento da antiga Vila Conceição.

Vários outros loteamentos compõem o bairro; alguns surgiram de chácaras independentes da pioneira Vila Conceição, casos do Jardim Elisa (aberto em 1959), Jardim Tiradentes (aberto pela empresa Café Tiradentes), Jardim Sandra, Jardim Recanto, além do próprio Parque Real.

Outros loteamentos derivam da Vila Conceição. São quadras inteiras adquiridas e reloteadas, como o Jardim São Paulo, Vila Diadema, Vila Marão, Jardim Olga, Jardim das Rosas e a própria Vila Pedroso.



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