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‘Duas Caras’ beira o absurdo

Gabriela Germano
Da TV Press
08/04/2008 | 07:13
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A licença poética é sempre uma boa desculpa para os autores justificarem suas invenções e fugas da realidade em uma obra. Mas qualquer ficção precisa respeitar alguns limites para convencer. E, em Duas Caras, de Aguinaldo Silva, a falta de verossimilhança em algumas cenas e até na trajetória de determinados personagens extrapola as fronteiras do aceitável.

 O casal formado por Juvenal Antena (Antonio Fagundes) e Alzira (Flávia Alessandra), não tem química e faz a relação entre os dois parecer pouco crível. Tanto é que, depois de se casarem, os dois aparecem bem menos juntos do que antes.

 Há, no entanto, histórias ainda menos convincentes. Como a de Jojô (Wilson de Santos). O fato de ele ser heterossexual e apenas fingir a homossexualidade já é pouco sustentável. O motivo que o leva a manter essa postura – ganhar dinheiro com o bordel para manter a família – beira o inacreditável. Mas não é o único caso.

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 Outra trama que em vez de engraçada torna-se forçada é a da fogosa Maria Eva (Letícia Spiller) e do fantoche Gabriel (Oscar Magrini). A vida sexual superativa do casal intimida os filhos. E a menina Ramona (Marcela Barroso) faz o papel da verdadeira senhora da casa. Sua postura crítica em relação ao excesso de animação dos pais é, no mínimo, artificial. Além de tornar a personagem uma chata, estigmatiza a jovem atriz, sempre lembrada como a certinha dos folhetins.

 Na Portelinha, o triângulo amoroso formado por Bernardinho, Heraldo e Dália, dos atores Thiago Mendonça, Alexandre Slavieiro e Leona Cavalli respectivamente, ja não soava natural. E, de uns tempos para cá, os personagens deram teto ao aproveitador Carlão (Lugui Palhares), sem justificativa plausível.

 O que parece é que Aguinaldo Silva escreve duas novelas em uma. Porque ao mesmo tempo que desenvolve situações e personagens tão frágeis, apresenta outras discussões com bastante propriedade.

 É o que acontece quando leva algumas questões polêmicas do dia-a-dia real para a novela. Como a disputa entre o poder paralelo e o oficial no Rio, por exemplo. O embate travado entre o líder da favela Juvenal Antena e o deputado Narciso (Marcos Winter), é representado com diálogos pertinentes, sem menosprezar a boa atuação dos intérpretes.

 O texto inconstante é outro ponto que faz de Duas Caras uma novela instável. Enquanto no núcleo dos poderosos como Barreto e Gioconda, de Stênio Garcia e Marília Pêra respectivamente, as falas continuam brilhantes, nas cenas em que aparecem os pobres da história o mau gosto e até a linguagem chula imperam.

 Menos frágil é a audiência da novela. A produção mantém uma média de 43 pontos, boa marca para os padrões atuais. Os números ainda podem melhorar com uma prevista recaída da mocinha Maria Paula (Marjorie Estiano), pelo vilão Ferraço (Dalton Vigh).

 As loucuras de Silvia – que Alinne Moraes tem defendido tão bem – são outro atrativo com capacidade de esquentar ainda mais o folhetim. Sem contar que Juvenal ainda pode morrer e voltar. O que confirmaria a tese de que mesmo em uma novela com uma proposta tão realista vale tudo – até o absurdo – para chamar a atenção.



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