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Algoritmos, misoginia e legislação

Vera Cambiatti da Costa
23/07/2026 | 10:44
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Hoje há uma verdadeira indústria da misoginia nas redes sociais. O ódio gera engajamento, monetiza e torna-se capital político eleitoral forte. Não é coincidência que influenciadores conhecidos por difundir esse tipo de conteúdo estejam projetando ou engajando candidaturas neste ano eleitoral. Logo, a real disputa é por algoritmos.

Enquanto alguns dizem intencionalmente que é apenas “opinião”, a história nos relembra que nenhuma retirada de direitos começa de forma abrupta. Ela começa quando ideias antes consideradas absurdas passam a circular sem constrangimento. Voltamos a ouvir questionamentos públicos sobre o direito das mulheres ao voto. Parece impensável? Talvez. Mas, se alguém se sente confortável para dizer isso em voz alta, é porque existe um público preparado para aplaudir. 

Esse público não surgiu por acaso. Foram expostos durante anos a conteúdos que desumanizam mulheres, transformam violência em entretenimento, e apresentam o controle sobre o corpo, a voz e a autonomia feminina como algo natural, muitas vezes justificados como piadas e brincadeirinhas.

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A escola é um dos ambientes que mais sente os efeitos desse processo porque a sala de aula é o retrato dessa sociedade e isso não é coincidência. Quando um menino reproduz discurso de ódio, ele não está só repetindo algo que viu nas redes sociais, ele expõe os valores desse novo ambiente que ensina valores e molda essa juventude. Quando uma professora é hostilizada, isso não é um ato isolado, se tornou cada vez mais corriqueiro e é parte de fenômeno maior, como Costa (2026) diz, é a lousa da misoginia que ensina, diante da desvalorização do ambiente que poderia trazer uma reflexão.

Distante disso, o Congresso está em recesso, depois, eleições e o PL 896/2023, aprovado por unanimidade no Senado, segue sem aprovação na Câmara. Esse projeto não é só para mulheres adultas, é para todas as meninas que crescem acreditando que precisam suportar o desrespeito, a todas as professoras que enfrentam diariamente a deslegitimação de sua autoridade, às mulheres que têm sua autoestima moldada por influenciadores que transformam humilhação em conteúdo e principalmente aos meninos que merecem aprender humanidade e empatia em vez de desumanização.

Há momentos em que discutir cada vírgula de um projeto é parte da democracia. Mas há momentos em que insistir apenas nas vírgulas faz com que percamos de vista o texto inteiro e isso deixa um questionamento como sociedade, quais meninos queremos formar e quanto tempo ainda levaremos para agir. A misoginia digital não fica na internet, chegou nas escolas, influencia a política e molda essa geração.

Enquanto o Congresso discute palavras, o algoritmo continua trabalhando, monetizando e ele não entra em recesso. Porque, quando o ódio se transforma em cultura, o custo é pago dentro das escolas, no seio das famílias e pela nossa jovem democracia. Quando finalmente decidimos enfrentá-lo, pode já ser tarde demais.

Vera Cambiatti da Costa é professora e voluntária no Levante Mulheres Vivas.

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