Artigo A discussão em torno do Projeto de Lei que propõe impedir a concessão de incentivos da Lei Rouanet a artistas e iniciativas que promovam ou façam apologia à violência contra a mulher, vai além da política cultural. O debate não é sobre censura, mas sobre a responsabilidade no uso de recursos públicos e os valores que a sociedade deseja incentivar por meio deles.
Em um País que ainda convive com altos índices de violência de gênero, enfrentar esse problema exige mais do que leis e punições. É necessário promover uma transformação cultural capaz de questionar comportamentos naturalizados e fortalecer uma cultura baseada no respeito e na igualdade. A prevenção deve caminhar ao lado da responsabilização.
Nesse contexto, a arte ocupa papel estratégico. Mais do que retratar a realidade, ela influencia percepções, desperta empatia e contribui para a formação de valores. Filmes, músicas, livros e espetáculos ajudam a construir referências sobre como enxergamos o outro e convivemos em sociedade.
Quando uma produção cultural recebe financiamento público, amplia-se também sua responsabilidade social. Não se trata de limitar a liberdade artística, mas de reconhecer que políticas de incentivo devem estar alinhadas aos princípios de promoção dos direitos humanos e da cidadania.
A história demonstra o potencial transformador da cultura. Campanhas e projetos voltados ao combate ao racismo, bullying e à discriminação contribuíram para ampliar o debate público e estimular mudanças de comportamento. Algo similar pode ocorrer no enfrentamento à violência contra a mulher, ao desconstruir estereótipos e incentivar relações mais respeitosas.
Esse impacto é ainda mais relevante entre crianças e adolescentes, que constroem grande parte de suas referências a partir dos conteúdos que consomem. Produções culturais que valorizam a empatia, a igualdade de gênero e a resolução pacífica de conflitos ajudam a formar cidadãos mais conscientes. O combate à violência começa muito antes da vida adulta: passa também pelas referências culturais oferecidas às novas gerações.
A arte sempre foi capaz de provocar transformações sociais. Quando utilizada como instrumento de conscientização, amplia o diálogo e fortalece valores vitais para uma sociedade mais justa. Nesse sentido, leis de incentivo têm papel importante ao ampliar o alcance de manifestações culturais que educam, inspiram e mobilizam.
Investir em cultura é também investir na prevenção da violência contra a mulher e na construção de uma sociedade em que o respeito deixe de ser apenas um princípio legal para se tornar um valor presente no cotidiano.
Vanessa Pires é CEO da Brada.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.