Economia Titulo Nova rodada

Tarifaço dos Estados Unidos pode afetar US$ 7,4 bilhões das exportações nacionais

Brasil estima que cobranças previstas para entrarem em vigor na quarta-feira (22) vão atingir 18% do que é vendido aos norte-americanos

Beatriz Mirelle
16/07/2026 | 20:46
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Valter Campanato/Agência Brasil
Valter Campanato/Agência Brasil Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A nova rodada de tarifas dos Estados Unidos aplicada contra produtos brasileiros poderá afetar 18% das exportações brasileiras, o equivalente a US$ 7,4 bilhões. Enquanto o governo federal promete lançar um programa para ajudar empresas que serão prejudicadas pelas cobranças adicionais de 25%, companhias do Grande ABC já calculam prejuízos e temem perder competitividade em relação a outras nações. As taxas devem entrar em vigor na próxima quarta-feira (22).

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, indicou nesta quinta-feira (16) que a estimativa leva em consideração a balança comercial de 2024. Segundo a Pasta, 57% da pauta exportadora aos EUA ficará isenta e 25%, afetada por outro regime tarifário já estabelecido. Ele falou que, se for considerado o ano de 2025, a participação dos setores atingidos nas exportações cai para 15%, ou US$ 5,8 bilhões. Já a Amcham (Câmara Norte-Americana de Comércio para o Brasil) projeta impacto a US$ 11 bilhões.

A União classificou o anúncio dos EUA, que afeta 4.000 produtos, como um “marco lastimável” para a história dos dois países. Informa, ainda, que iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC (Organização Mundial do Comércio). “A aplicação de sobretaxas tende a elevar custos para as empresas e consumidores dos Estados Unidos, reduzir a competitividade de suas indústrias que utilizam insumos brasileiros, bem como ampliar a sua dependência de fornecedores asiáticos”, comunicou a Amcham, em nota. 

DGABC

Na avaliação de Aroaldo Silva, presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico Grande ABC, o novo ataque ameaça o desenvolvimento industrial do Brasil, especialmente de regiões industriais. Segundo ele, na primeira rodada, os mais afetados foram os segmentos metal-mecânico, borracha, máquina e defesa. “Medidas unilaterais dessa natureza desorganizam cadeias produtivas, reduzem a competitividade da economia nacional e colocam em risco empregos de qualidade.”

O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que a ação é para combater “práticas comerciais desleais e garantir que trabalhadores e empresas norte-americanas possam competir em igualdade de condições”. O Brasil foi alvo de investigação do USTR (sigla em inglês para Representante Comercial dos Estados Unidos), que concluiu, em junho, que atividades como Pix, pirataria e desmatamento ilegal “oneram” os norte-americanos. O secretário de Estado, Marco Rubio, comentou que “o presidente Lula e seu governo não negociaram de boa-fé”.

Entre os principais itens taxados estão etanol, máquinas agrícolas, máquinas elétricas, vestuário, calçados e papel. Em nota, o Palácio do Planalto pontuou que não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio, mas nunca deixou a mesa de negociação. Também atribuiu as cobranças à família do ex-presidente Jair Bolsonaro. “É triste constatar que o lamentável desfecho das apurações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. Proteger a nossa soberania é uma obrigação que está acima de todos os partidos e todas as tendências.”

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reforçou que, desde o início, as retaliações do governo de Donald Trump tiveram “motivação política” e não possuem “lastro com a realidade”. Ao todo, 2.126 produtos estarão isentos. Na lista, houve manutenção das exceções para carne bovina, café em grão, laranja e suco de laranja, além da inclusão de alguns produtos de madeira, medicamentos, insumos farmacêuticos, ferro-gusa e resíduos de ferro. A justificativa é a dependência das fundições norte-americanas sobre o mercado brasileiro. 

Mesmo quem não foi alvo direto, já teme o futuro. “Esse impacto irá afetar os grandes exportadores, principalmente de alimentos, que, de forma indireta, terão repercussões sobre indústrias de embalagens, como a nossa, além dos setores logístico e de outros fornecedores de insumos”, relatou Marcel Batistella Mazurkyewistz, diretor de operações do Grupo Mazurky, no Parque São Vicente, Mauá. Segundo ele, as cobranças reforçam a importância da diversificação de mercados, em especial do Mercosul.

A mesma avaliação é feita por Erick Souza, diretor comercial da Maximu’s Embalagens Especiais, no bairro Represa, em Ribeirão Pires, que sente a insegurança do setor. “Isso tudo é muito ruim para o País e para o ambiente de negócios globalizados em que vivemos, considerando que os os EUA são superavitários na nossa balança comercial. Apesar de não sermos afetados diretamente pelas tarifas, nosso receio é que empresas de mercados consumidores das nossas embalagens sejam eventualmente afetadas e diminuam suas demandas”, concluiu.

Governo federal promete medida para empresas

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, contestou nesta quinta-feira (16) as alegações dos Estados Unidos para justificar a aplicação de tarifas adicionais de 25%, ao chamá-las de injustas, e garantiu, sem detalhar, que o Executivo tem preparado um programa para ajudar os setores afetados. 

“A medida é descabida porque os argumentos partem de uma base totalmente falsa. Então o governo terá um programa de apoio aos que aqui estão labutando, trabalhando. E nós temos uma lei da reciprocidade aprovada por unanimidade no Congresso Nacional e que, no momento adequado, saberemos como implementá-la”, disse.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que as recentes declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, são “ofensivas ao povo brasileiro”. Destacou, ainda, que ele atacou de “forma grosseira e arrogante” um chefe de Estado de um “país amigo”, ao citar o presidente Lula. 

Rubio declarou que as políticas econômicas do governo de Lula são “ruins para os norte-americanos e para os brasileiros”. Ele acusou o petista de não negociar de boa-fé com os Estados Unidos. “Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações”, destacou o chanceler brasileiro.

O partido do presidente Lula tem usado o termo ‘tariflávio” para definir as cobranças e culpar o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, que, por sua vez, responsabiliza o petista. “Enquanto eu estava nos EUA tentando evitar o tarifaço, Lula preferiu provocar Trump. O Brasil sequer enviou representantes para defender os nossos interesses. Quem paga essa conta é o povo brasileiro! Defenda o Brasil do PT, o Partido do Tarifaço”, escreveu Flávio nas redes sociais.

Motivação política pesa na balança

Economistas e autoridades da indústria apontam que as cobranças adicionais dos Estados Unidos, que devem entrar em vigor na próxima semana, sobre produtos brasileiros maximizam a pressão política sobre o território nacional e minimizam os custos para a economia norte-americana.

“O efeito é potencialmente danoso para a indústria de transformação, por exemplo, porque ela tem custo de capital elevado e uma produtividade que tem caído nos últimos anos. No atual cenário, aplicar a Lei de Reciprocidade traria poucos benefícios diante da dimensão dos impactos que ela pode ter”, disse o economista e professor de Administração da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) Jorge Ferreira Filho.

De acordo com o professor de economia da Strong Business School, o Brasil já está mais preparado para lidar com os prejuízos de um tarifaço. “Já conseguimos driblar alguns impactos no ano passado. É um abalo pontual. O efeito a longo prazo vai depender das habilidades de buscar e encontrar novos mercados, o que é trabalhoso, mas possível.”

Para o presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Ricardo Alban, a lista de isenções representou um alívio e demonstrou que o trabalho técnico e o diálogo produziram efeitos práticos. Já o Ciesp (Centro das Indústrias de São Paulo) considerou que “o mais grave do novo tarifaço é a forte evidência de motivação política”. Destacou também que, agora, o Brasil estará entre os países com as barreiras comerciais mais severas nos Estados Unidos. 

A Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química) indicou que “não há lógica” e pediu que o governo federal adote mecanismos temporários de mitigação. “Os fundamentos da decisão extrapolam a esfera econômica. A medida se insere em um contexto mais amplo de tensões geopolíticas e de reorganização das cadeias globais de comércio, sem relação direta com eventuais distorções na balança comercial entre Brasil e EUA”.

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