Enterrada ecológica Franca recebe até domingo cerca de 600 atletas na maior competição de basquete de base do Brasil e o único com pegada ecológica
FOTO: Divulgação

Alinhado com as demandas mais urgentes de preservação do planeta, o campeonato, organizado pelo Instituto Chuí de Esportes com o selo do Programa Esporte pelo Clima, faz muito mais do que revelar jovens estrelas das categorias de base da Sub-12 ao Sub-15. Ele recalcula o próprio impacto do esporte no meio ambiente.
Através de uma metodologia baseada nas diretrizes do GHG Protocol, toda a pegada ecológica gerada pelo evento é meticulosamente medida. Entram na conta o deslocamento das delegações (com destaque para as longas distâncias percorridas por equipes de outros estados), a energia consumida nos ginásios, a alimentação dos atletas e até os copos descartáveis que vão para o lixo. Ao final, essa conta em toneladas de CO2 equivalente ($CO_2e$) é traduzida diretamente no plantio de árvores nativas na região de Franca, ajudando a recuperar a nossa biodiversidade e ensinando na prática lições valiosas de cidadania para os atletas.
Mais que um crédito financeiro: compromisso real com a terra
Diferente de grandes corporações que apenas compram "créditos de carbono" de forma burocrática no mercado regulado tradicional para limpar a consciência, o diferencial do basquete sustentável em Franca é a ação direta e voluntária no território. Em vez de apoiar projetos distantes em outros biomas ou estados, a compensação do torneio ocorre de forma visível e comunitária na própria região. Os atletas saem das quadras direto para a terra molhada na época das chuvas (geralmente em novembro), sentindo na pele o impacto real de suas ações.
"O grande diferencial desse plantio direto é justamente o processo educativo. Ir lá e comprar o crédito de carbono qualquer instituição pode fazer de forma fria. No nosso programa, nós trabalhamos olhando diretamente para o território. A nossa abordagem com a educação climática é entender como as mudanças climáticas afetam o cotidiano das pessoas. Essa mobilização social que fazemos também é o impacto positivo.", disse Natalia Vieira de Carvalho Martins, Coordenadora do Programa Esporte pelo Clima.
O "raio-x" das quadras: de onde vêm as emissões?
O inventário das edições anteriores do torneio trouxe dados curiosos que quebram velhos mitos. Se você pensa que a energia elétrica dos ginásios, como o Pedrocão e o SESI, é a grande vilã do clima, engana-se: ela respondeu por menos de 1% do total de emissões (com apenas 40,7 kg de $CO_2e$), graças ao uso inteligente de energia solar.
O verdadeiro "adversário" climático estava no prato e na estrada:
Alimentação (Carne Bovina): Representou 38% de todas as emissões do evento em 2025 (7,34 toneladas de $CO_2e$), fruto das refeições concentradas em proteínas para atletas de alta performance.
Transporte das Equipes: Foi responsável por 33% do impacto (6,36 toneladas de $CO_2e$), somando as viagens rodoviárias das equipes visitantes e o trânsito diário das delegações locais em Franca.
Hospedagem: Respondeu por 28,5% das emissões (5,50 toneladas de $CO_2e$) ao longo do evento.
Da Teoria ao Chão: Os Números que Fecham o Jogo
Se em 2024 o torneio gerou 25 toneladas de $CO_2$ e compensou com 220 mudas nativas, a edição de 2025 reduziu as emissões para 19,3 toneladas. Para compensar esse montante, seriam necessárias teoricamente 129 mudas. Contudo, em uma atitude de segurança ambiental, a organização subiu o sarrafo e plantou 200 árvores nativas na Fazenda Manacá (em Patrocínio Paulista), uma propriedade modelo, reconhecida com o prestigiado Selo Angus de Sustentabilidade pelas suas práticas agropecuárias de baixo carbono.
E o impacto não parou aí. O sucesso da proposta inspirou o histórico Mutirão COP-30. Unindo forças regionais, a ação se transformou na maior operação ecológica do Instituto Chuí, mobilizando mais de 760 pessoas e plantando 2.200 mudas nativas distribuídas em seis municípios paulistas e mineiros (Franca, Arcos, Batatais, Campos Novos Paulista, Rifaina e Guará).
O futuro começa antes do apito inicial
Para 2026, o torneio quer ganhar o jogo antes mesmo de a bola subir. O foco agora é na mitigação. Por regulamento, o uso de copos plásticos descartáveis foi restringido de forma drástica nas áreas de competição, sendo substituídos por garrafas reutilizáveis distribuídas a todos os participantes. Na alimentação, o diálogo com os nutricionistas busca incentivar a diversificação de proteínas no cardápio, diminuindo a dependência da carne vermelha tradicional sem afetar o rendimento dos garotos em quadra.
Em um momento em que o Brasil caminha a passos largos rumo à COP-30 para liderar as discussões ambientais globais, o basquete de Franca prova que o esporte tem voz ativa e pernas fortes na corrida contra o aquecimento global. Cada cesta convertida nestes torneios é, de fato, mais um pulmão verde que passa a respirar nas florestas da nossa região.
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