Complicações da doença Foram 419 casos no 1º quadrimestre de 2016 e 1.014 no mesmo período deste ano; falta de tratamento adequado pode ser um dos fatores, diz médico
FOTO: Reprodução/EBC

O número de internações por complicações decorrentes da diabetes aumentou 142% em dez anos. Dados do DataSUS, plataforma do Ministério da Saúde, mostram que, entre janeiro e abril de 2016, foram registradas 419 hospitaliza-ções. No mesmo período deste ano, o total chegou a 1.014 casos. Na comparação com igual intervalo de 2025, quando houve 892 internações, o crescimento foi de 13,6%.
De acordo com o médico cirurgião vascular e integrante da Comissão de Pé Diabético da SBACV-SP (Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular de São Paulo), Afonso Cesar Polimanti, o aumento pode significar não somente mais pessoas com a doença, mas também que muitos diabéticos não estejam seguindo o tratamento.
“Muitos pacientes não recebem as recomendações necessárias ou não as seguem para ter melhor qualidade de vida. Isso leva à hiperglicemia crônica, um dos principais fatores para as complicações da diabetes que podem levar à internação”, justifica o especialista.
A aposentada de São Bernardo Luci Meire Ramos, 56 anos, recebeu aos 23 um diagnóstico incorreto de diabetes e, por não ter o tratamento correto, teve complicações. Em 2022, precisou amputar metade do pé direito.
“Durante 28 anos fui tratada como paciente do tipo 2 da doença, mas na verdade tenho o tipo 1, que foi descoberto em 2020, quando tive um AVC (Acidente Vascular Cerebral) Isquêmico e perdi minha visão. Como não foi encontrado nenhum problema que justificasse, o derrame foi vinculado à diabetes”, conta. “Naquele momento, também foi descoberto que eu tinha glaucoma e não sabia. Hoje enxergo somente 3%”, destaca.
A diferença entre as diabetes tipo 1 e 2 é que, na primeira, a pessoa tem uma doença autoimune que destrói as células que produzem a insulina, gerando uma deficiência quase total do hormônio. Já no segundo caso, o problema é a resistência à insulina, que leva o corpo a produzir de tal forma que não consegue dar conta de colocar todo o açúcar na célula.
Entre as principais complicações, que podem ter o risco diminuído com o tratamento adequado, estão a cegueira, insuficiência renal e perda de algum membro. “A glicemia elevada a longo prazo leva a lesões na microcirculação, podendo causar sequelas em alguns lugares. Os mais comuns são a retina, causando a retinopatia diabética, uma das principais causas de cegueira. No rim, pode causar lesões na região responsável por filtrar o sangue e levar à insuficiência renal”, explica o médico.
Os picos de glicemia persistentes também levam à lesão em microvasos que nutrem as artérias. “A pessoa tem uma perda da irrigação do membro como se tivesse fumado, que também destrói os nervos que dão a sensibilidade dos membros. O paciente se machuca e não percebe, e pior, no momento em que precisaria de mais sangue para cicatrizar essa ferida, ele pode não chegar. O diabético tem ainda um déficit na resposta a infecções”, acrescenta Afonso Polimanti.
Dois a cada três desconhecem a doença
O médico cirurgião vascular e integrante da Comissão de Pé Diabético da SBACV-SP (Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular de São Paulo), Afonso Cesar Polimanti, afirma que, mesmo com o aumento dos diagnósticos no Brasil – 135% em 18 anos segundo o Ministério da Saúde – em função do envelhecimento da população e do estilo de vida, ainda há subnotificação. “No País, a cada três pessoas com diabetes, duas não sabem que têm a doença. No mundo, uma em cada duas pessoas.”
O especialista ressalta que a diabetes potencialmente mutila e mata, mas suas consequências podem ser evitadas com o conhecimento da doença e seu tratamento adequado, que inclui uma rotina saudável.
“O que dificulta é que a mudança de hábito e o controle de doenças crônicas se tornam uma briga diária. Não é fácil mudar a dieta, cortar carboidratos no dia a dia. O autocuidado requer coordenação contínua de dieta, atividade física e monitoramento rígido da glicemia.”
Algumas barreiras sociais também têm papel nessa dificuldade. “Não é incomum o portador de diabetes apresentar quadro de depressão, de ansiedade e insegurança alimentar ”, diz Polimanti.
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