Saúde de Família & Comunidade
Fernandes

É muito comum que pessoas que viveram as décadas de 1950 e 1960 relembrem com carinho o “médico de família”: aquele profissional que atendia todos os integrantes da casa, conhecia suas histórias e acompanhava cada fase da vida. Vale lembrar que, naquele período, o SUS ainda não existia e o acesso a esse tipo de cuidado era privilégio de poucos.
Essa memória desperta um saudosismo legítimo, justamente pelo vínculo que esses médicos construíam com as pessoas atendidas, uma relação que ia muito além dos sintomas físicos. Com a criação do SUS, na década de 1980, e a consolidação da Medicina de Família e Comunidade como especialidade fundamental da Atenção Primária à Saúde, milhões de brasileiros passaram a ter acesso a esse cuidado baseado na proximidade, na confiança e na continuidade do acompanhamento.
Na Medicina de Família e Comunidade, esse vínculo recebe o nome de longitudinalidade: o acompanhamento contínuo da pessoa ao longo do tempo, por um mesmo médico ou médica. Quanto maior essa continuidade, maior o conhecimento sobre a história de vida, o contexto familiar e as necessidades de cada paciente, permitindo intervenções mais precisas, prevenção de doenças, melhor controle das condições crônicas e promoção da saúde em sua integralidade.
Nesse cuidado, a família, a rotina, o trabalho, as relações e o território onde a pessoa vive também fazem parte da consulta. Afinal, compreender o contexto social, econômico, cultural e ambiental é essencial para entender a saúde física, mental e emocional de cada indivíduo, seja em um bairro nobre de São Paulo, seja em comunidades rurais, ribeirinhas, quilombolas, indígenas ou em regiões de difícil acesso.
Em 2026, a Medicina de Família e Comunidade, especialidade médica, completa 50 anos no Brasil. São cinco décadas formando especialistas comprometidos com um cuidado que ultrapassa paredes e consultórios. Médicas e médicos de família e comunidade sobem morros, atravessam rios em pequenas embarcações, percorrem estradas sem infraestrutura, atuam em áreas remotas e também em territórios marcados pela violência, levando muito mais do que assistência médica: levam presença, confiança e vínculo.
Hoje, somos mais de 15 mil médicas e médicos de família e comunidade, muitos atuando na Estratégia Saúde da Família, dentro e fora das Unidades Básicas de Saúde. Realizamos visitas domiciliares, ações comunitárias e mutirões de atendimento. Quando falta estrutura, improvisamos consultórios em escolas, centros comunitários ou mesmo à sombra de uma árvore. Porque o cuidado não depende apenas de paredes, mas da disposição de estar onde as pessoas estão.
É nesses encontros que o vínculo se fortalece. No olhar atento, no aperto de mão que muitas vezes termina em um abraço, na escuta acolhedora que reconhece não apenas a dor do corpo, mas também os sofrimentos da mente, da família e da vida.
A Medicina de Família e Comunidade ensina que cuidar é acompanhar. É construir confiança ao longo dos anos para que cada consulta seja uma continuidade da anterior, e não um novo começo. Talvez seja justamente isso que tantas pessoas recordam com emoção ao falar do antigo “médico de família”. A diferença é que, hoje, esse cuidado não deve ser uma lembrança de poucos, mas um direito de todos.
Fabiano Gonçalves Guimarães é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.
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