Mais gestão, menos polarização Titulo Opinião

Sem negacionismo climático por favor!

Paulo Serra
05/07/2026 | 08:20
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Seri/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Durante muito tempo, as mudanças climáticas foram tratadas como um problema do futuro. Um tema para cientistas, ambientalistas ou para as próximas gerações. Mas a realidade já mudou. O clima deixou de ser apenas uma preocupação ambiental para se tornar uma das maiores questões sociais, econômicas e de saúde pública do nosso tempo.

O que estamos assistindo na Europa é um retrato muito claro dessa nova realidade. A recente onda de calor extremo levou países como França, Espanha e Itália a enfrentarem temperaturas históricas, pressionando hospitais, interrompendo serviços públicos e provocando milhares de mortes associadas ao calor. Em algumas cidades francesas, cenas de longas filas e até conflitos pela compra de aparelhos de ar-condicionado chamaram a atenção do mundo. 

Pode parecer apenas um episódio isolado. Não é.

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Essas imagens revelam algo muito maior: quando o clima extremo se torna rotina, ele altera completamente o comportamento das pessoas. O calor deixa de ser apenas desconfortável. Ele afeta a saúde, a produtividade, a mobilidade, o comércio, o funcionamento das cidades e até o equilíbrio emocional da população.

Em outras palavras, as mudanças climáticas já interferem diretamente na qualidade de vida das pessoas.

E o Brasil não está distante dessa realidade.

Os especialistas alertam que este pode ser mais um período de forte influência do El Niño, fenômeno que potencializa extremos climáticos. Em algumas regiões, calor intenso e longos períodos de estiagem. Em outras, chuvas torrenciais, enchentes e deslizamentos.

Mas existe um impacto que muitas vezes recebe menos atenção: o efeito sobre a saúde pública.

Temperaturas elevadas e alterações no regime de chuvas criam condições ideais para a proliferação de mosquitos transmissores de doenças como dengue, chikungunya e zika. Além disso, ondas de calor aumentam casos de desidratação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias, sobrecarga dos serviços de saúde e maior vulnerabilidade de crianças e idosos.

Ou seja, discutir mudanças climáticas hoje também é discutir prevenção de doenças.

É discutir planejamento hospitalar.

É discutir vigilância epidemiológica.

É discutir políticas públicas.

Infelizmente, ainda há quem trate esse tema apenas sob o ponto de vista ideológico. Mas o clima não pergunta em quem votamos. Ele simplesmente acontece.

Por isso, governos precisam incorporar definitivamente a resiliência climática como prioridade de gestão.

Isso significa investir em tecnologia, ampliar sistemas de monitoramento, fortalecer a Defesa Civil, modernizar a drenagem urbana, preservar áreas verdes, preparar os serviços de saúde para eventos extremos e utilizar inteligência de dados para antecipar riscos.

Foi exatamente esse caminho que escolhemos em Santo André.

Depois das fortes chuvas de 2019, compreendemos que não bastava apenas responder às emergências. Era necessário preparar a cidade para conviver com uma nova realidade climática.

Criamos um amplo programa de resiliência, utilizando ferramentas tecnológicas para monitoramento meteorológico, gestão de riscos, fortalecimento da Defesa Civil, integração entre secretarias e planejamento preventivo para eventos extremos. A lógica deixou de ser apenas reagir aos desastres. Passamos a trabalhar para antecipá-los.

Essa mudança de postura fez de Santo André uma referência em adaptação climática e mostrou que investir em prevenção salva vidas, reduz prejuízos e torna as cidades mais preparadas para enfrentar desafios que tendem a ser cada vez mais frequentes.

A grande lição é simples.

As cidades do futuro não serão aquelas que apenas crescerem mais. Serão aquelas que conseguirem proteger melhor a sua população.

A pauta climática já não pertence apenas aos ambientalistas. Ela pertence aos prefeitos, governadores, parlamentares, profissionais da saúde, engenheiros, urbanistas e gestores públicos.

Porque, no fim das contas, o maior desafio das mudanças climáticas não é apenas preservar o planeta.

É garantir que as pessoas continuem vivendo com segurança, saúde e qualidade de vida dentro dele.




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