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Aprender um instrumento ajuda a proteger o cérebro, diz especialista

Estudos que acompanham pessoas antes e depois de começarem a tocar reforçam essa direção, inclusive entre quem inicia já idoso

03/07/2026 | 13:58
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FOTO: Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


 A ideia de que aprender música é coisa de criança está sendo desmontada pela ciência. Estudos recentes mostram que tocar um instrumento na vida adulta, mesmo começando depois dos 40 anos, está associado a melhor memória e raciocínio e pode ajudar a preservar o cérebro com o envelhecimento.

Quem aposta nesse público é o violinista Arthur Lauton, criador do canal Como Tocar Violino. Ele ensina adultos a tocar pela internet e escolheu como bandeira o instrumento que costuma assustar iniciantes. "Nas primeiras aulas de violino é impossível tocar uma música sequer. Quem está começando passa muitas vezes meses só para aprender a passar o arco nas cordas e produzir um som mais decente", afirma. Segundo Lauton, a maioria dos alunos sempre quis tocar, mas adiou o plano por falta de tempo ou pela ideia de que já seria tarde.
 
A fama de instrumento difícil tem explicação técnica. O violino não tem trastes nem marcações no braço para guiar os dedos, o que obriga o músico a achar cada nota pelo ouvido e pela memória da mão. Um desvio de um milímetro já desafina. "No piano, a nota está ali o tempo todo. Se você apertou, é aquela nota. No violino, se você coloca um milímetro para o lado, desafinou", compara o violinista.
 
O que dizem as pesquisas
 
O maior estudo sobre o tema saiu da Universidade de Exeter, no Reino Unido, dentro do projeto PROTECT, que acompanha pessoas com 40 anos ou mais e já reuniu mais de 25 mil participantes em dez anos. Em análise publicada em 2024 no International Journal of Geriatric Psychiatry, os pesquisadores cruzaram a experiência musical de mais de mil adultos com testes cognitivos. Tocar um instrumento esteve associado a melhor memória de trabalho e melhor função executiva, a capacidade de planejar e resolver tarefas.
 
Os números ajudam a entender o alcance. A idade média dos participantes era de 68 anos, e a maioria havia estudado música por cinco anos ou menos, com duas a três horas de prática por semana. Os resultados não dependeram de uma vida inteira de dedicação.
 

Os pesquisadores deste projeto afirmam que ser musical seria uma forma de mobilizar a chamada reserva cognitiva, a margem de proteção que o cérebro constrói ao acumular estímulos ao longo da vida. Atividades que exigem esforço mental sustentado alimentam essa margem. O aprendizado de um instrumento mobiliza ao mesmo tempo audição, leitura, coordenação motora, memória e atenção.

O tema entrou no debate sobre prevenção de demência. Em 2020, uma comissão da revista The Lancet listou doze fatores de risco modificáveis associados a cerca de 40% dos casos no mundo, entre eles o baixo estímulo cognitivo. Pesquisadores brasileiros calcularam que, no país, atuar sobre esses fatores poderia prevenir ou adiar até 48% dos casos. O recorte importa no Brasil, onde cerca de 1,8 milhão de pessoas já convivem com algum quadro de demência, segundo estimativas citadas por pesquisadores da Unifesp.

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Há uma ressalva. A maior parte dos estudos é observacional, ou seja, mostra associação, não causa. Não dá para afirmar que tocar um instrumento, sozinho, previne a demência. O que os dados sustentam é que a prática musical integra um conjunto de hábitos ligados a um cérebro mais preservado. Estudos que acompanham pessoas antes e depois de começarem a tocar reforçam essa direção, inclusive entre quem inicia já idoso.

Aprender online, no próprio ritmo

Se compensa começar na vida adulta, resta saber como. Para muita gente, a resposta passou a ser a internet. O ensino musical online se multiplicou na última década e permitiu estudar em casa instrumentos que antes exigiam escola ou professor particular. O violino, apesar da fama, entrou nessa onda.

Lauton diz que o perfil de quem o procura se repete: adultos que começaram depois dos 30 anos, muitos vindos de igrejas ou de aulas informais. Segundo o violinista, sua base reúne mais de 2 mil alunos, em todos os estados do Brasil e em mais de 26 países, e o canal no YouTube que já ultrapassa os 250 mil inscritos. Ele defende que o adulto aprende diferente da criança e precisa entender o motivo de cada etapa, ponto que associa à andragogia, área que trata da aprendizagem de adultos. "Adulto precisa entender o porquê do que está fazendo. Se não tiver sentido, ele simplesmente para", afirma.

A própria trajetória dele mostra que o domínio do instrumento leva tempo. Começou a tocar aos sete anos, de forma informal, e só ao entrar na USP para estudar música, já com mais de vinte, percebeu que precisaria reconstruir postura e técnica. Formou-se também pela UFBA e passou seis anos na Orquestra Sinfônica da Bahia. Hoje afirma trabalhar para ajustar a expectativa de quem chega tarde. "Não existe pílula mágica. Tem que pegar o violino, fazer os exercícios e seguir o passo a passo. Com 20 minutos por dia, em quatro ou cinco meses a pessoa já toca alguma coisa", diz.
 

Os especialistas reforçam que a prática musical não substitui acompanhamento médico nem garante proteção contra doenças neurodegenerativas. O que ela oferece, segundo os dados, é um estímulo consistente a um cérebro que, em qualquer idade, segue capaz de aprender.




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