Publieditorial Entre deslocamentos, pausas, esperas e compromissos, pequenos erros na conta do tempo podem mudar mais a rotina do que parece.
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Pergunte a alguém quanto tempo leva para ir de casa ao trabalho e a resposta virá rápida, com a confiança de quem faz o trajeto todo dia: "uns trinta minutos". Agora cronometre. Há uma boa chance de que sejam quarenta e três. Não porque a pessoa esteja mentindo, mas porque ninguém vive o trajeto com um relógio na mão. A gente vive pela sensação — e a sensação, quando o assunto é tempo, costuma ser otimista demais.
Parte da explicação está na forma como a memória guarda o tempo. Ela não arquiva "quarenta e três minutos no trânsito". Ela arquiva "meia hora, mais ou menos". Arredonda para baixo, simplifica, transforma o percurso real numa versão enxuta e cômoda. É um mecanismo natural — seria exaustivo lembrar cada minuto. Mas é também a origem de quase todos os nossos erros de cálculo no dia a dia.
Pense no almoço que "durou uma hora". A pessoa saiu meio-dia e cinco, voltou uma e vinte, e registrou mentalmente uma hora cravada. Foram setenta e cinco minutos. Quinze a mais, todo santo dia.
A maior dificuldade talvez seja estimar a duração entre duas coisas. Quanto tempo passa, de verdade, entre fechar a porta de casa e sentar na cadeira do trabalho? Não é só o trajeto. É a espera pelo elevador, a caminhada até o ponto, os minutos parados no sinal, a fila do café antes de começar. Cada pedaço parece pequeno; o conjunto, não.
A essa altura, alguém poderia perguntar: e daí? Treze minutos a mais no trânsito, quinze no almoço, dez na saída — quem se importa?
Nada disso significa virar prisioneiro do cronômetro. Medir cada segundo seria trocar um incômodo por outro, talvez maior. Mas vale, de vez em quando, fazer um teste honesto: durante alguns dias, anotar os horários reais. A que horas saiu, a que horas chegou, quanto durou cada pausa, quanto levou cada compromisso. Depois, somar tudo.
O tempo é abstrato até o instante em que os números são somados. Antes disso, ele é só uma impressão — e a impressão tende a ser generosa, a nos convencer de que tudo foi mais rápido, mais curto, mais leve do que de fato foi.
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