Artigo O debate sobre a modernização das jornadas de trabalho ocupa espaço crescente na sociedade brasileira. A discussão sobre o fim da escala 6x1 reflete mudanças nas expectativas dos trabalhadores, avanços tecnológicos e uma busca cada vez maior por qualidade de vida.
Melhorar as condições de trabalho e ampliar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal são objetivos legítimos e necessários. O desafio, porém, não está apenas na mudança em si, mas na forma como ela será implementada.
Transformações estruturais nas relações de trabalho exigem planejamento, previsibilidade e diálogo. Em setores que funcionam continuamente e atendem milhões de brasileiros todos os dias, qualquer alteração na jornada precisa considerar seus impactos econômicos, operacionais e sociais.
O setor de telesserviços ilustra bem essa realidade. A atividade emprega cerca de 1,5 milhão de trabalhadores e sustenta o atendimento de bancos, operadoras de telecomunicações, empresas de saúde, varejo, tecnologia e serviços públicos. Muitas dessas operações funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana.
Nesse contexto, mudanças na jornada afetam não apenas empresas e trabalhadores, mas também contratos em vigor, níveis de serviço, dimensionamento de equipes e compromissos assumidos com consumidores.
Isso não significa resistência às mudanças. Significa reconhecer que elas precisam ocorrer de forma responsável e compatível com a realidade de cada atividade econômica.
A experiência brasileira demonstra que a negociação coletiva é um dos instrumentos mais eficazes para conciliar interesses e construir soluções equilibradas. Cada setor possui características próprias. Enquanto alguns podem avançar mais rapidamente para novos modelos de jornada, outros necessitam de um período maior de adaptação operacional, tecnológica e contratual.
Por isso, qualquer proposta relacionada ao fim da escala 6x1 deve ser construída com ampla participação de trabalhadores, sindicatos, empresas e poder público. Uma transição estruturada precisa contemplar cronogramas viáveis, segurança jurídica e mecanismos capazes de preservar empregos.
O Brasil já enfrenta profundas transformações provocadas pela digitalização, automação e inteligência artificial. Nesse cenário, proteger postos de trabalho e investir na qualificação profissional tornou-se tão importante quanto ampliar a qualidade de vida dos trabalhadores.
Esses objetivos não são incompatíveis. Com planejamento e diálogo, é possível promover avanços nas relações de trabalho sem comprometer a sustentabilidade das operações e dos serviços essenciais.
O futuro do trabalho deve ser construído de forma equilibrada, conciliando proteção social, competitividade e desenvolvimento econômico. O fim da escala 6x1 pode representar um avanço importante, desde que sua implementação ocorra de maneira gradual, negociada e responsável.
Luís Crem é presidente do Sintelmark (Sindicato Paulista das Empresas de Contact Center).
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