
Se a Copa é do Mundo, é justo que o torneio conte diferentes histórias dele. A partida entre Austrália e Egito, nesta sexta-feira, é um dos jogos menos badalados da segunda fase do Mundial, mas é também um dos que mais exemplifica como o futebol vai além do gramado. A seleção australiana tem um histórico de diversidade, reflexo da sociedade do país, que recebeu imigrantes de diferentes regiões.
Em 2026, três jogadores do time compartilham histórias semelhantes. Awer Mabil, Nestory Irankunda e Mohamed Touré nasceram em campos de refugiados em três países diferentes antes de terem a vida transformada pelo futebol na Austrália. Irankunda, de 20 anos, nasceu em Kigoma, na Tanzânia.
A sua família havia deixado Burundi e mudou-se para a Austrália quando Nestory tinha apenas 10 meses de vida. Foi do atacante um dos gols na vitória por 2 a 0 sobre a Turquia na fase de grupos. "Apenas tento jogar o meu melhor quando estou jogando pela seleção, e foi isso que fiz.
Dei tudo de mim. Isso é o que eu amo fazer, dar tudo de mim pelo país que me deu tudo", declarou Irankunda, em entrevista ainda no campo após o jogo. Também atacante, Mohamed Touré, de 22 anos, nasceu na cidade de Conakry, em Guiné, depois de sua família ter deixado a Libéria.
Eles se mudaram, depois, para o Sul da Austrália. "Quero contar minha jornada para os jovens, especialmente aqueles com histórias parecidas com a minha. Onde você começa não define aonde você vai chegar", disse Touré ao site da ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).
Awer Mabil é mais velho, com 30 anos, e já está na sua segunda Copa do Mundo, após ter sido convocado para o Catar. O jogador nasceu no Kakuma Refugee Camp, no Quênia, após a família deixar o Sudão do Sul. Aos 10 anos, ele se mudou para Adelaide.
Em 2023, Mabil foi nomeado "Jovem Australiano do Ano" pelo trabalho de apoio a refugiados por meio do esporte e da educação. A premiação é concedida pelo governo australiano para iniciativas de cidadania. O EFEITO SALAH QUE MUDOU A INGLATERRA O principal jogador da seleção do Egito deixou o Liverpool após quase 10 anos no clube.
Não sem antes ganhar a Champions League e duas vezes a Premier League. Outra conquista de Mohamed Salah não é mensurada em títulos ou números de gols. Em 2021, pesquisadores das universidades de Stanford, Yale e Colorado investigaram se o contato via mídia com figuras públicas de grupos externos, como muçulmanos, pode reduzir o preconceito contra esse grupo como um todo.
O exemplo foi Salah e torcedores do Liverpool. O chamado "efeito Salah" foi medido a partir da análise de diferentes dados. Após a chegada do atacante ao Liverpool, os crimes de ódio na região caíram. Apesar de os muçulmanos representarem apenas 5% da população local na época, eles eram vítimas em 39% dos casos até então.
Essa queda foi específica para crimes de ódio e não foi observada em outras categorias. O estudo sugere que o efeito não foi, portanto, decorrente de uma redução geral da criminalidade na região. A pesquisa também reuniu 15 milhões de tweets de torcedores dos cinco clubes mais populares da Premier League (Manchester United, Arsenal, Chelsea, Liverpool e Manchester City) e do Everton.
Desse grupo, 44 mil tweets faziam referência ao Islamismo. Após a chegada de Salah, os torcedores do Liverpool reduziram pela metade a taxa de postagens anti-muçulmanas (de 7,3% para 3,8%) em relação aos torcedores de outros grandes clubes da Premier League. Outra frente entrevistou 8.060 integrantes da torcida do Liverpool.
Eles foram separados em grupos. Um deles não recebeu estímulos da pesquisa e teve 18% das respostas dizendo que o Islamismo é compatível com os valores britânicos. Já no grupo que foi exposto às informações sobre a religiosidade de Salah, a taxa de resposta positiva subiu para 23%.
PARTIDA PODE DEFINIR ADVERSÁRIO DA ARGENTINA Quem vencer entre Austrália e Egito enfrentará, nas oitavas de final, o vencedor entre Argentina e Cabo Verde. Tanto australianos quanto egípcios tiveram campanhas irregulares, ainda que suficientes para a classificação ao mata-mata da Copa. A Austrália estreou com vitória sobre a Turquia, perdeu para os Estados Unidos e empatou com o Paraguai.
Bastou para avançar como segunda colocada do Grupo D. O Egito não perdeu, mas empatou duas (contra Bélgica e Irã). A vitória sobre a Nova Zelândia, na segunda rodada, ajudou a seleção a garantir o segundo lugar do Grupo G. Foi a primeira vez que o Egito avançou além da fase de grupos da Copa do Mundo. Cada vitória, portanto, representa agora o melhor desempenho egípcio nos Mundiais.
A Austrália tem como melhores resultados as oitavas de final de 2006 e de 2022. Como na época essa era a primeira fase de mata-mata, mesmo que o time avance, sem garantir novo recorde em 2026, será a primeira vez que a seleção vence uma disputa eliminatória na Copa. FICHA TÉCNICA AUSTRÁLIA X EGITO AUSTRÁLIA - Patrick Beach; Alessandro Circati, Harry Souttar e Lucas Herrington; Aziz Behich, Aiden O'Neill, Jackson Irvine, Connor Metcalfe, Cristian Volpato e Jordan Bos; Nestory Irankunda.
Técnico: Tony Popovic. EGITO - Mostafa Shobeir; Mohamed Hany, Ramy Rabia, Mohamed Abdel Monem e Ahmed Fatouh; Marwan Attia, Mahmoud Saber, Emam Ashour e Mohamed Salah; Mostafa Ziko e Mahmoud Trézéguet. Técnico: Hossam Hassan.
ÁRBITRO - Gustavo Tejera (URU). HORÁRIO - 15h (de Brasília). LOCAL - AT&T Stadium, em Arlington. ONDE ASSISTIR - Globo, SporTV e CazéTV.
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