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A era das bets chegou ao trabalho

Priscila Arraes Reino
27/06/2026 | 07:20
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O celular vibra durante o expediente. Não é uma mensagem da família nem um e-mail corporativo. É mais uma notificação criada para capturar atenção, estimular impulsos e manter alguém apostando. A expansão das plataformas de apostas online no Brasil começa a revelar efeitos que ultrapassam o ambiente digital. O problema já alcança famílias, serviços de saúde e relações de trabalho.

A ludopatia, também chamada de jogo patológico, é um transtorno marcado pela compulsão por apostas mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais e profissionais. A pessoa perde o controle do impulso e continua apostando apesar das dívidas e do sofrimento psíquico. A Organização Mundial da Saúde reconhece a ludopatia como transtorno mental. O DSM-5 incluiu o jogo compulsivo entre os transtornos ligados à dependência.

Ainda assim, o senso comum frequentemente trata o problema como falha moral. E é justamente aí que surge um dos aspectos mais perigosos: a discriminação. Dados do DataSenado mostram que milhões de brasileiros utilizam plataformas de apostas esportivas e que grande parte exerce atividade remunerada. O trabalhador endividado, ansioso e desconcentrado já integra a realidade de muitas empresas.

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O ambiente corporativo ainda não sabe lidar com esse adoecimento. Em vez de reconhecer sinais de sofrimento psíquico, muitas empresas só enxergam queda de produtividade, atrasos e conflitos. A resposta costuma ser isolamento, estigmatização e demissão. Nesse ponto, a discussão deixa de ser apenas médica e passa a ser jurídica. A legislação proíbe práticas discriminatórias nas relações de trabalho. Segundo o Tribunal Superior do Trabalho, a dispensa de trabalhadores acometidos por doenças graves que gerem estigma ou preconceito pode ser presumida discriminatória.

Na prática, se a empresa conhece o adoecimento, cabe ao empregador demonstrar que a demissão ocorreu por motivo legítimo. A ludopatia se encaixa nesse debate porque altera a forma como o trabalhador é percebido. O compulsivo em apostas deixa de ser visto como alguém adoecido e passa a ser tratado como empregado problemático. Quando a dispensa discriminatória é reconhecida, o trabalhador pode ter direito à reintegração e indenização por danos morais.

A arrecadação prevista com as apostas online parece pequena diante do custo social do jogo compulsivo. Afastamentos do trabalho, tratamentos de saúde mental, perda de produtividade, superendividamento e ruptura familiar ampliam essa conta.

A era das bets chegou ao trabalho. E talvez o maior erro seja continuar tratando a ludopatia como problema individual, ignorando que ela já se transformou em questão de saúde mental, dignidade humana e discriminação nas relações de trabalho.

Priscila Arraes Reino é advogada previdenciária e trabalhista e autora de Burnout tem lei.




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