Artigo O Brasil é um gigante continental que tenta se mover por um gargalo. É impossível olhar para o nosso mapa logístico sem sentir o peso de uma escolha histórica: abrimos mão dos trilhos para apostar tudo no asfalto. Enquanto os Estados Unidos operam sobre mais de 260 mil quilômetros de ferrovias e a Europa integra modais com precisão cirúrgica, o Brasil sobrevive com uma malha ferroviária de apenas 32 mil quilômetros.
Na prática, isso significa que a espinha dorsal da nossa economia, ou seja, 65% de tudo o que produzimos e consumimos, repousa sobre quatro eixos e uma carroceria.
Neste cenário, o transporte rodoviário não é apenas um modal; é o nosso único caminho. E é justamente aqui que reside um contrassenso que acompanho de perto há anos: por sermos tão dependentes do caminhão, deveríamos ser os melhores do mundo em gerir frotas. Mas, infelizmente, a realidade ainda é pautada pelo improviso.
Diferentemente de um empresário norte-americano ou europeu, o transportador brasileiro não tem amortecedores. Se um trem descarrila nos EUA, a carga é redirecionada. Se o frete marítimo sobe na Europa, a ferrovia absorve. No Brasil, quando um veículo para por manutenção mal planejada ou quebra em plena rodovia, a operação inteira entra em colapso. Não há trilhos para absorver o atraso.
Por que empresas estrangeiras investem tanto em plataformas de gestão, telemetria e manutenção preditiva, mesmo tendo diversas opções logísticas à disposição? A resposta é simples: controle é prioridade estratégica.
No Brasil, negligenciar a gestão de ativos chega a ser um risco existencial. Principalmente quando o preço do combustível bate recordes e o custo logístico devora mais de 12% do PIB. Não temos margem para o “desperdício silencioso”.
Não há mais espaço para tratar a gestão de frotas como processo isolado. É preciso gerir, extrair o máximo de performance de cada pneu, litro de diesel e real investido. Isso só é possível quando abandonamos planilhas manuais e sistemas desconectados para abraçar uma gestão 360º. Falo de auditoria real de abastecimento, checklists rastreáveis que garantem segurança jurídica e, sobretudo, integração total entre a operação e o financeiro.
Afinal, ignorar a inteligência de dados na frota é aceitar custos mais altos, paradas não planejadas e a perda inevitável de competitividade. A tendência global é clara: o futuro da logística não está apenas no motor, mas na inteligência. Se o Brasil quer competir de igual para igual com as grandes economias, precisamos parar de tratar frotas como custo e passar a tratá-las como o ativo estratégico que elas são.
Paulo Raymundi é CEO da Gestran.
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