
A Copa do Mundo 2026 já é um marco para a história do futebol africano. Dos dez países que se classificaram para o Mundial realizado Estados Unidos, Canadá e México, nove conseguiram avançar para a segunda fase da competição: Marrocos, Costa do Marfim, África do Sul, República Democrática do Congo, Egito, Argélia, Cabo Verde, Senegal e Gana. Ou seja, esta é a Copa com mais seleções da África no mata-mata.
Este sucesso africano dentro das quatro linhas passa por uma mudança de estratégia que ganhou força nos últimos anos: a aposta em treinadores locais. Destas nove seleções que conseguiram vaga na 2ª fase, cinco são comandadas por técnicos de seus respectivos países. Este é o caso do Marrocos, dirigido por Mohamed Ouahbi, Cabo Verde, por Pedro Bubista, Senegal, por Pape Thiaw, Costa do Marfim, por Emerse Faé, e Egito, por Hossam Hassan.
Luis Fernando Filho, jornalista especialista em futebol africano e um dos criadores da página Ponta de Lança (@pontalancapdl no Instagram e X), elenca os motivos que explicam esta aposta das federações africanas em treinadores locais. "O primeiro fator é a identificação dos treinadores com o DNA do futebol local. Do Senegal até o Egito, a identidade cultural faz diferença no entendimento do jogo."
"Outro detalhe importante é o fato dos treinadores africanos das seleções do continente serem ex-jogadores dos próprios países. São profissionais que já vivenciaram o processo de jogar uma Copa Africana ou Copa do Mundo. A experiência somada ao estudo e identificação com os jogadores da seleção forma uma unidade no elenco- e que facilita o entendimento tático do jogo e das próprias raízes de cada seleção africana", acrescenta.
Esta tendência se fortaleceu com o sucesso do Marrocos na Copa de 2022, no Catar. Comandada por Walid Regragui, ex-jogador dos Leões do Atlas, os marroquinos fizeram história e se tornaram a primeira seleção africana a chegar até as semifinais da competição. Outro país que ganhou destaque recente foi o Senegal, que chegou ao inédito título na Copa Africana de Nações em 2021 e nas oitavas de final do último Mundial com Aliou Cissé, ex-atleta dos Leões de Teranga.
Além da experiência como jogadores, estes profissionais, que fazem parte de uma nova geração de técnicos, se qualificaram para a carreira à beira do campo. Para Luis Fernando Filho, a busca por profissionais que conhecem a identidade do futebol de seus países com maior profundidade é uma maneira de traduzir a cultura local para dentro de campo. "Há uma mudança de mentalidade no futebol africano e uma juventude africana buscando renovar o cenário do futebol.
Nomes como Walid Regragui e Aliou Cissé, por exemplo, tomaram o protagonismo entre os técnicos africanos nos últimos anos." "Treinadores jovens, ex-atletas de Marrocos e Senegal, que buscaram formação para comandarem seus países. Existe uma nova leva de ex-atletas africanos se capacitando e buscando protagonismo nas seleções africanas.
Atualmente, Pape Thiaw (Senegal) e Ouahbi (Marrocos) treinaram a base das seleções antes de subirem ao profissional e disputar uma Copa do Mundo", avalia. O caminho tem sido inverso na América do Sul, por exemplo. Nesta Copa, Uruguai, com Marcelo Bielsa, Colômbia, com Néstor Lorenzo, e Equador, com Sebastián Beccacece, foram conduzidas por técnicos argentinos.
Na África, em contrapartida, o entendimento é que identidade cultural, conhecimento sobre contexto local e qualificação técnica são as principais ferramentas para atingir grandes resultados. "A grande resposta é a oportunidade de maior capacitação dos profissionais africanos no futebol", finaliza.
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