Mais gestão, menos polarização Titulo Mais gestão, menos polarização

Enquanto brigamos, as bets vencem

Paulo Serra
28/06/2026 | 08:00
Compartilhar notícia
 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Há um efeito da polarização política que raramente aparece nas manchetes, mas que talvez seja um dos mais perversos para o futuro do Brasil: ela nos impede de discutir os problemas que realmente estão mudando a vida das pessoas.

Todos os dias somos convidados a escolher um lado. Uma nova crise, uma nova polêmica, um novo embate nas redes sociais. A pauta da semana muda rapidamente, mas o roteiro é sempre o mesmo: indignação, ataques, torcida organizada e pouco espaço para reflexão.

Enquanto isso, questões que deveriam mobilizar o Congresso Nacional, os governos e toda a sociedade acabam ficando em segundo plano.

DGABC

As apostas esportivas são um exemplo claro disso.

O tema ganhou força nos últimos meses, especialmente durante a Copa do Mundo, quando as transmissões esportivas passaram a ser praticamente tomadas por propagandas de plataformas de apostas. Não se trata apenas de uma discussão sobre publicidade. Trata-se de um debate sobre saúde pública, proteção às famílias e responsabilidade social.

Hoje, especialistas já alertam para o crescimento da dependência em jogos de azar, especialmente entre jovens e pessoas de baixa renda. Diversos levantamentos mostram que uma parcela significativa do endividamento das famílias brasileiras já está relacionada às apostas. Estima-se que cerca de 57% das famílias que convivem com esse tipo de dívida tenham algum vínculo com gastos em plataformas de apostas.

Mais do que um problema econômico, estamos diante de uma nova chaga social.

O sonho do dinheiro fácil, alimentado por campanhas publicitárias agressivas e pela presença constante de influenciadores e atletas promovendo essas plataformas, cria uma ilusão perigosa. Para milhares de brasileiros, a aposta deixa de ser entretenimento e passa a ser uma falsa esperança de resolver dificuldades financeiras.

E, como toda falsa esperança, quase sempre termina em frustração.

Isso não significa demonizar o setor nem defender proibições simplistas. O caminho responsável passa pela regulamentação séria.

O Brasil precisa discutir limites para a publicidade, especialmente aquela direcionada aos jovens; mecanismos eficientes de fiscalização; controle rigoroso da atuação das plataformas; transparência nas operações; campanhas permanentes de conscientização e políticas públicas para prevenção e tratamento da ludopatia, o vício em jogos.

Outros países já avançaram nesse debate. Aqui, ainda estamos atrasados.

E parte desse atraso acontece porque nossa energia política está sendo consumida por conflitos permanentes que rendem curtidas, mas não produzem soluções.

A polarização cria uma falsa sensação de que todos os problemas do País cabem em uma disputa entre dois lados. Não cabem.

O cidadão que perdeu o controle financeiro por causa das apostas não quer saber quem venceu a última discussão nas redes sociais. A família que viu um filho desenvolver dependência em jogos não está preocupada com hashtags. Ela quer proteção, informação e políticas públicas.</CW>

É exatamente para isso que existe a política.

Governar não é alimentar conflitos. É enfrentar problemas reais.

O Brasil precisa voltar a discutir educação, produtividade, saúde mental, segurança, inovação, reforma do Estado e temas como a regulamentação das apostas com a seriedade que eles exigem.

Porque, enquanto o debate público permanece preso à guerra permanente entre extremos, problemas silenciosos continuam crescendo.

E talvez esse seja o maior prejuízo da polarização.

Ela não apenas divide o País.

Ela distrai o País.

E um país distraído demora muito mais para enfrentar aquilo que realmente ameaça o futuro de sua população.

Paulo Serra é especialista em gestão pública, professor universitário, presidente estadual do PSDB e foi prefeito de Santo André de 2017 a 2024.




Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.


;