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Região indica que cota zero de importação a carros elétricos fragiliza empresas nacionais

Medida será renovada por seis meses, com limite de US$ 463 milhões, a partir de quarta

Beatriz Mirelle
27/06/2026 | 17:55
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FOTO: Divulgação/BDY
FOTO: Divulgação/BDY Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


A nova rodada de cotas adicionais de importação com alíquota zero para veículos eletricos entrará em vigor nesta quarta-feira (1º), com validade de seis meses. A medida foi aprovada na semana passada pelo Gecex (Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior), que estabeleceu limite de US$ 463 milhões para veículos CKD (totalmente desmontados) e SKD (semi desmontados). Entidades do Grande ABC criticam a renovação, em sintonia com a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), que ameaça judicializar o caso.

O Gecex informa que, ao passar do teto, serão cobradas taxas de 35% para os semidesmontados já a partir do mês que vem. Já para os modelos desmontados, a cobrança continua de 14% até o fim deste ano e sobe para 35% em janeiro de 2027.

A principal beneficiada é a BYD, que solicitou a renovação e opera no sistema SKD na fábrica de Camaçari, na Bahia. A GWM, outra montadora chinesa que começou a produzir no Brasil em 2025, diz que não pediu a volta do benefício.

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“A história da aliquota zero foi importante para consolidar investimentos no Brasil. O grande debate gira em torno da BYD e nós vemos que ela já alcançou bons resultados. De agora em diante, isso vai prejudicar o mercado. Estamos dialogando com a Anfavea. As montadores já anunciaram aportes sob a perspectiva de retomada do mercado com os programas do próprio governo federal. Enxergamos que a nova decisão como um problema”, diz o presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico, Aroaldo Silva.

Ele indica que momentos como esse são importantes para provocar a unificação do setor de forma contínua, não apenas diante desafios. “Devemos organizar melhor como absorvemos as demandas e ofertas soluções mais eficazes para pensar no futuro do Grande ABC”, afirma.

Para a Anfavea, a medida foi tomada sem consultar o setor e acende grandes preocupações. A entidade considera que a indústria já respondeu aos estímulos criados pela política pública e a discussão deixou de ser como acelerar a entrada dos veículos eletrificados no Brasil. “Em 2025, os veículos eletrificados produzidos no País responderam por 25,9% das vendas do segmento. Já no acumulado até maio de 2026, o mercado atendido por veículos produzidos no Brasil cresceu 57% na comparação com o mesmo período de 2025.” 

Também ressalta que a ampliação ocorre em um momento em que a produção local está em expansão e isso reduz os incentivos para a evolução produtiva esperada dessa nova etapa da indústria automotiva. “A decisão contraria a sinalização que orientou investimentos anunciados sob as regras vigentes e gera insegurança para empresas que estruturaram projetos considerando o cronograma estabelecido pelo próprio governo.”

O presidente eleito do Sindicato dos Metalúrgicos do Grande ABC, Wellington Damasceno, avalia que a renovação não terá impactos imediatos na região, mas não vê sentido para ela ter acontecido. “Ela passa um recado muito divergente das políticas implementadas pelo governo Lula para incentivo da indústria nacional. As cotas servem para segmentos que ainda precisam experimentar e entender a dinâmica do nosso mercado. Hoje, os eletrificados já têm seu espaço”, opina.

Na avaliação dele, a ação pode criar efeitos colaterais a médio prazo, ao ser interpretada como um benefício para quem produz no Exterior. “Ela incentiva que as empresas comecem a percorrer um caminho muito perigoso para nós, que é apostar na importação de CKD e SKD para ter algum tipo de benefício, em detrimento da produção nacional. Vão entender que é mais vantajoso trazer o produto do que fabricar localmente”, exemplifica.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o vice-presidente da GM (General Motors) América do Sul, Fabio Rua, criticou a renovação. “Nós respeitamos a decisão do governo, mas temos uma posição 100% alinhada com a Anfavea. Não entendemos que a indústria brasileira vai se fortalecer com medidas unilaterais, que têm como objetivo favorecer um competidor. Foi desconfortável, eu não posso negar.”

Na última quarta-feira , a GM anunciou aporte de R$ 3,5 bilhões no Brasil, mas não detalhou quanto do montante será destinado à unidade de São Caetano. Também na região, a Volkswagen não se pronunciou sobre o caso dos eletrificados.

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Kits podem gerar perdas de R$ 96,8 bilhões a autopeças

Um levantamento feito pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) aponta que a fabricação em massa de kits importados pode gerar perda de R$ 96,8 bilhões para o setor de autopeças, redução de R$ 24,3 bilhões em arrecadação para o governo federal e eliminar 68 mil empregos diretos e 191 mil em toda a cadeia.

O presidente do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), Rafael Cervone, classifica que as novas cotas adicionais de importação de elétricos criam “concorrência desleal” contra as empresas que produzem efetivamente no Brasil e comprometem a previsibilidade regulatória. “A alteração das regras no meio do jogo transmite um sinal preocupante ao setor, fere a segurança jurídica e fragiliza a confiança quanto à realização de novos investimentos produtivos.”

O coordenador de cursos de MBA do setor automotivo da FGV (Fundação Getulio Vargas), Antônio Jorge Martins, considera que a renovação foi “deselegante” da parte do governo, mas afirma que agora é necessário realizar negociações para que as montadoras contempladas se comprometam a trazer tecnologias. “Esse é um ponto que deve ser perseguido para que realmente haja criação de valor em nosso País. Quanto mais tributos tecnológicos o veículo tem, mais valorizado. Precisamos ter etapas produtivas que gerem inovação em território nacional.”

Jorge Martins explica que os kits devem ser usados para traçar estratégias para que as empresas produzam no Brasil para vender para o mercado local, mas também ajudar nas exportações. Segundo ele, os consumidores devem tirar vantagens nesse período. “É difícil falar qual é a tendência de um mercado no momento em que as condições estão se alterando. A oferta está cada vez mais pulverizada. Uma montadora que fabrica e vende muito dilui seus custos fixos e variáveis perante o volume de produção. Quanto maior o número de ofertantes, a competitividade aumenta e os preços caem.”

Governo federal alega chance de incentivar descarbonização

Enquanto entidades ligadas ao setor automotivo brasileiro endurecem as críticas ao governo federal, o Gecex (Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior) alega que a renovação da cota de importação com alíquota zero aos eletrificados está alinhada às iniciativas de renovação da frota. Aponta, ainda, que são incentivos à redução das emissões de carbono e à criação de melhores preços no mercado.

“A medida converge com outras iniciativas do governo voltadas ao fortalecimento da inovação e da descarbonização no ecossistema automotivo brasileiro, com veículos mais sustentáveis, que contribuem para a redução das emissões de CO2 (gás carbônico)”, detalha o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

A frente da Pasta, Márcio Elias Rosa defende que o novo cronograma estimula e fortalece a economia. “Quem quiser montar, fabricar e produzir aqui no País encontra vantagem e instrumentos de apoio. O governo tomou essa decisão para favorecer o consumidor, o mercado, sem ignorar que precisamos de uma série de medidas para acomodar todos os interesses.”

O anúncio do Gecex aconteceu um dia depois que a chinesa BYD divulgou que atingiu a marca de 300 mil veículos vendidos no Brasil. A rede da montadora já conta com 217 concessionárias em todo o País. Na semana passada, o vice-presidente sênior da BYD no Brasil, Alexandre Baldy, se pronunciou sobre o presidente Igor Calvet, da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), afirmar sobre a possibilidade de judicializar o caso.

“Eu não posso comentar a decisão da entidade, uma entidade histórica, respeitada, fazendo 70 anos. Eu quero dizer que brigar com o governo nunca é bom. Então, nós respeitamos o governo, respeitamos o Brasil, cumprimos a nossa parte desse compromisso com o brasileiro, investindo, gerando emprego para brasileiro e trazendo investidor estrangeiro.”




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