Novos destinos Entre janeiro e abril de 2026, 186 pessoas chegaram de outros países para viver na região; venezuelanos são maior contingente
ARTE: Agostinho Fratini/DGABC

O Grande ABC registrou uma média mensal de 46 novos imigrantes que passaram a residir nas sete cidades, entre janeiro e abril de 2026. Os dados do Sistema de Registro Nacional Migratório da Polícia Federal mostraram que a região recebeu 186 pessoas de outros países no primeiro quadrimestre do ano. Nesta quinta-feira (25), é celebrado o Dia Nacional do Imigrante.
Além de ser instituída para encerrar as celebrações da Semana da Imigração Japonesa em 1957, a data tem o objetivo de retratar que o Brasil ficou marcado por receber outros povos. Nos últimos anos, inclusive, o País ampliou mecanismos de proteção aos imigrantes com a Lei de Migração nº 13.445/2017, que garante aos estrangeiros os mesmos direitos à vida, à liberdade e à igualdade assegurados aos brasileiros.
“A Lei de Migração estabelece todos os princípios e um marco regulatório. A Venezuela, por exemplo, se beneficia de um acordo de fronteiras, que prevê facilidades e dispensa de documentos de difícil obtenção. Em geral, quando uma pessoa chega ao Brasil, ela procura a Polícia Federal e obtém a autorização de residência, a partir de agendamento”, comentou o ex-coordenador de Política Migratória do Ministério da Justiça e presidente da Rede Sem Fronteiras, Paulo Illes. O especialista ressalta que, apesar de o País ter fronteiras abertas, ainda há falhas no processo de integração e, muitas vezes, os agendamentos da PF demoram a ser realizados.
Santo André e São Bernardo foram os maiores destinos dos novos residentes, com 70 e 65 pessoas, na ordem. Mauá e Diadema aparecem na sequência, com 23 e 17 registros. São Caetano e Rio Grande da Serra tiveram cinco cada. Ribeirão Pires fecha a lista com apenas um. Historicamente, o Grande ABC também ficou marcado como ponto de partida para novas vidas, visto que a região consolidou-se como polo industrial, principalmente automotivo.
Esse foi o caso da família do venezuelano Paul Enrique Lugo, 35 anos, morador de São Caetano há duas décadas. O analista de sistemas comentou que seu falecido pai, William Enrique Sierra, 62, trabalhava na multinacional Ford na Venezuela e tinha que viajar muitas vezes por ano, o que atrapalhava a rotina da família. “A decisão também foi influenciada pelo cenário político do país. Na época (início da década de 2000), passamos por um período de dificuldades financeiras, devido à transição do governo do Hugo Chávez (ex-presidente), época marcada por forte centralização política”, disse.
Posteriormente, a família teve que decidir entre dois destinos: ir para o México ou vir para o Brasil, onde havia uma oportunidade na fábrica de São Bernardo. Em razão da distância, escolheram a segunda opção. “Não sabia o que era o Brasil, mas quando chegamos, encontramos um povo acolhedor e muito amigável. O pessoal de São Caetano teve muita paciência para me ensinar o idioma e foi o esporte que ajudou na integração cultural”, comentou Lugo.
“O Grande ABC recebe muitos imigrantes. Temos observado que a região se destaca pela força industrial e pelas oportunidades oferecidas a essas populações”, concluiu Illes.
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CRISE E GUERRA FAVORECEM FLUXOS IMIGRATÓRIOS
Os fluxos imigratórios podem decorrer de diversas razões, como trabalho, reunião familiar, estudos, entre outros fatores. Porém, segundo o professor de Direito Público e Relações Internacionais da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Robinson Nicácio, as crises políticas e econômicas e as guerras também impulsionam muitos dos deslocamentos migratórios.
“Questões relativas a perseguições políticas, por exemplo, abrem caminho para migrações internacionais. As guerras e crises econômicas também são consideradas relevantes para a compreensão de grandes deslocamentos devido a condições melhores de vida, segurança e trabalho”, explicou Nicácio.
Nos quatro primeiros meses do ano, os venezuelanos registraram o maior fluxo com 72 novos moradores nas sete cidades, de acordo com dados do Sistema de Registro Nacional Migratório da PF (Polícia Federal). Haiti e Síria aparecem na sequência, com, respectivamente, 18 e 16 pessoas. (Veja o detalhamento na arte acima)
No início deste ano, a Venezuela foi alvo de uma ação militar conduzida pelos Estados Unidos, seguida da captura do presidente Nicolás Maduro, o que causou instabilidade no país. Contudo, o ex-coordenador de Política Migratória do Ministério da Justiça e presidente da Rede Sem Fronteiras, Paulo Illes, esclareceu que o motivo do contingente de venezuelanos ao Brasil é derivado de uma crise instalada há anos. “Os fluxos enfrentam há mais de 10 anos uma crise profunda e atualmente passam por uma interdição. Então, trata-se de uma população que permanece em situação de pobreza, pelo regime e pela proibição econômica dos Estados Unidos”, acrescentou Illes.
Ao consultar os anos anteriores no sistema da PF, é possível observar a incidência de maiores fluxos devido aos conflitos, como a Guerra da Síria em 2011, que resultou em aumento do fluxo. Em 2014, por exemplo, foram 59 novos imigrantes sírios na região, ante 17 no ano anterior.
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