Economia Titulo Protagonismo feminino

Mulheres da região conquistam espaço em profissões historicamente masculinas

Marceneira Fernanda Lazareni e funileira Sandra de Brito desafiam estereótipos para obter independência financeira

João Vittor Espíndola
Especial para o Diário
20/06/2026 | 21:30
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Celso Luiz/DGABC
Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


 Uma furadeira em uma mão, uma parafusadeira na outra e determinação para desafiar estereótipos. Em setores historicamente ocupados por homens, cada vez mais profissionais têm mostrado que talento, técnica e dedicação não dependem de gênero. É nesse cenário de transformação que histórias como a da marceneira Fernanda Lazareni e da funileira Sandra de Brito ganham destaque e ajudam a quebrar paradigmas que, durante décadas, afastaram mulheres de profissões ligadas ao trabalho manual e à indústria.

“Quando fiquei desempregada, encontrei dificuldades para conseguir um emprego compatível com o meu currículo. Foi aí que entrei na marcenaria”, afirma Fernanda, 52 anos, moradora do bairro Assunção, em São Bernardo.

Ela produz móveis e estruturas para gatos e comanda o próprio negócio há 15 anos. Ao longo da trajetória, precisou superar desconfianças e provar sua capacidade, mas transformou a profissão em uma ferramenta de independência financeira e realização pessoal. Hoje, mantém uma oficina nos fundos de casa, onde executa seus trabalhos.

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Fernanda precisou lidar com a desconfiança de quem não acreditava que uma mulher pudesse se destacar na área. “Teve muita risadinha no começo do curso, porque todo mundo achava que eu não sabia. Depois que viram que eu realmente entendia, pararam com as piadas”, relembra.

Na visão dela, ainda existe a percepção equivocada de que profissões ligadas ao trabalho manual exigem força física acima de tudo. “A marcenaria me mostrou que a gente pode fazer qualquer coisa. Não precisa ter força bruta. Precisa ter jeito, vontade e coragem para aprender”, destaca.

Assim como na marcenaria, na funilaria a presença feminina também chama a atenção. Há 15 anos no setor, Sandra de Brito, 42, proprietária de uma oficina de reparação automotiva na Vila Aquilino, em Santo André, transformou o interesse pelos carros em profissão e construiu uma trajetória marcada pela persistência em um ramo historicamente dominado por homens.

Como acontece em grande parte dos pequenos negócios, os primeiros anos da oficina foram marcados por desafios relacionados à sustentabilidade financeira e à conquista de clientes. Com persistência, aperfeiçoamento técnico e foco na qualidade dos serviços prestados, ela conseguiu superar as dificuldades iniciais para garantir fonte de renda estável para a família.

Segundo Sandra, a reação dos clientes costuma variar. Enquanto alguns demonstram admiração, outros ainda chegam à oficina com certo receio. “Muitas pessoas não dão credibilidade a uma mulher. Alguns ficam felizes e me elogiam por fazer esse trabalho, outros ficam com um pé atrás. Apesar disso, conquistei uma clientela muito fiel.”
Ao olhar para a própria trajetória, ela acredita que a experiência ajudou a derrubar preconceitos. Hoje, espera que cada vez mais mulheres ocupem esses espaços. “Nós podemos fazer tudo aquilo que quisermos. É uma chance de conquistar <CF50>a nossa independência”, conclui Sandra.

Segundo a economista da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) Patrícia Andrade, a divisão desigual das responsabilidades domésticas ainda é uma das principais barreiras para a inserção e o crescimento feminino no mercado de trabalho.

“Em uma sociedade patriarcal, 31,7% das mulheres deixam de procurar emprego devido às responsabilidades com os cuidados domésticos, contra apenas 3,5% dos homens”, ressalta a especialista, com base em dados da ONU (Organização das Nações Unidas).

Para ela, normas sociais que associam mulheres ao cuidado doméstico ainda pesam. “Há sub-representação de referências femininas em áreas técnicas e na política pública, além de expectativas sociais sobre maternidade que impactam as carreiras. Tudo isso reflete a desigualdade estrutural”, conclui a especialista da ESPM.




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