Memória e Justiça Carolina Marcondes descobriu diários com relatos sobre o relacionamento de Isilda Sueli Dias Silvério, morta aos 31 anos
André Henriques/DGABC

Aos 5 anos de idade, a jornalista Carolina Marcondes, hoje com 45, atendeu a uma ligação que iria mudar os rumos de sua vida. Era manhã do dia 11 de abril de 1986, quando sua avó telefonou para sua casa, no Interior do Estado, avisando que a tia, a analista de comércio exterior Isilda Sueli Dias Silvério, 31, havia sido vítima de um assassinato, que somente após cerca de três décadas viria a ser tipificado como feminicídio.
O caso ocorrido no bairro Jardim Oriental, em Santo André, estampou uma das páginas do Diário em 12 de abril. A reportagem noticiava que o advogado e marido de Isilda, Valdir Aparecido Silvério, 32, atirara na mulher e cometera suicídio durante a madrugada. Os corpos foram encontrados pelo filho mais velho, Daniel Dias, que na época tinha 10 anos (hoje com 50). Além dele, o casal tinha o caçula Carlos Eduardo Dias, com 4 anos à época (atualmente com 44).
Na reportagem, relatos indicaram que Silvério teria visto a vítima com outro homem, o que o motivou a cometer o crime. Com o intuito de entender melhor o que teria acontecido, a jornalista Carolina Marcondes nutriu um interesse pela história, que foi esquecida por 40 anos. Em 2018, a sobrinha descobriu diários escritos pela própria tia com relatos do cotidiano de um relacionamento conturbado.
“Uma coisa que sempre digo para meus primos, que acabaram virando meus irmãos: a gente cresceu com a ausência dela. O nome dela sempre era mencionado. Apesar de não ter a presença física, sempre fez parte da minha vida”, disse a jornalista.
Segundo ela, os diários de Isilda trouxeram relatos de um relacionamento abusivo, controle, ciúmes excessivos e uma rotina exaustiva. De acordo com a apuração, a tese de que ela estaria com outro homem foi totalmente descartada. “Quando lemos os diários dela e conhecemos a história, vemos que isso é uma loucura, porque tia Isilda foi uma mulher totalmente dedicada à família, trabalhava muito e vivia do trabalho para casa. Ele (Silvério) tinha ciúmes de qualquer homem que cruzasse o caminho dela. Ela foi morta por machismo, ciúmes e controle”, resume Carolina.
Um dos trechos das páginas dos diários, dessa vez escritos pelo próprio advogado, trouxe: “Tenho vontade de furar os olhos de qualquer homem que olhe para minha esposa”.
Segundo Carolina, Silvério lia os relatos da mulher e, em alguns momentos, também escrevia no diário, como forma de controle. Ela afirma ainda que Isilda contava sobre as violências verbais sofridas e também as agressões de Silvério contra o filho mais velho, Daniel. “Apesar de tantas brigas, o tempo todo ela relatava que amava muito o marido e queria continuar com ele, com mais diálogo, escuta e consenso. Em nenhum momento, nos relatos do diário, cogitou viver sem ele.”
Outro relato que a impactou indicava o esforço de Isilda em mostrar não haver chances para outro amor: <CF50>“O que mais me machuca é a desconfiança que ele tem quanto ao meu comportamento, principalmente com os homens... Não sei como ele quer que eu me comporte. O único homem que me interessa ter por perto é o meu Val. Será que dá para ele entender?”
O Diário entrou em contato com equipes policiais e de Justiça, porém, nenhum inquérito sobre o caso foi localizado. Segundo Carolina, também não foram encontrados desdobramentos nas buscas realizadas por ela, por meio da Lei de Acesso à Informação.
“Ler os diários foi uma bênção, porque pude entender o que realmente aconteceu. Dar voz a ela, mesmo tantos anos depois, é uma sensação de justiça e uma forma de homenagem”, concluiu a jornalista.
Apesar de ter descoberto a existência dos materiais históricos ainda em 2018, foi somente em 2025 que a jornalista Carolina Marcondes decidiu divulgar suas apurações. No ensaio "Com amor, Isilda", publicado na Revista Serrote, do Instituto Moreira Salles, a comunicadora ficou em terceiro lugar na oitava edição do Concurso de Ensaísmo Serrote.
Carolina contou que conheceu o concurso por meio de um amigo. “Entreguei o texto em junho do ano passado e em setembro avisaram que tinha sido premiada. Sempre fui muito ligada ao Instituto Moreira Salles, então foi incrível, me senti muito lisonjeada. Minha família celebrou muito também”, afirmou.
A felicidade de ter vencido, porém, contrastou com o processo de escrita. Para ela, o trabalho foi desafiador em razão do parentesco. “A semana em que passei escrevendo foi bem difícil para mim, muito triste e pesada. Vemos que ela estava sofrendo com aquilo. Mas sinto que tudo que passei como jornalista foi para chegar neste momento. Virei jornalista para contar a história da minha tia, essa é a sensação que tenho”, concluiu.
Futuramente, o ensaio publicado na Serrote vai virar livro. O caso também foi retratado no episódio "Bilhetes de Amor" da Rádio Novelo, podcast publicado em 11 de junho.
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