Teconologia nas eleições Com minirreforma aprovada na Câmara, fiscalização, desinformação e Inteligência Artificial entram no foco da discussão para eleição de 2026
Celso Luiz/DGABC

Com a aproximação do pleito de outubro, aplicativos como o WhatsApp voltam a despontar como um dos principais canais de circulação de conteúdo político, em um cenário marcado por mudanças nas regras da busca pelo voto. A recente aprovação, pela Câmara Federal, de minirreforma eleitoral que autoriza determinadas formas de disparo em massa de mensagens por candidatos – ainda pendente de análise no Senado – reacendeu o debate sobre os limites da propaganda digital.
Especialistas avaliam que a proposta amplia os canais de comunicação das campanhas, mas também levanta preocupações sobre fiscalização, desinformação e uso de IA (Inteligência Artificial) nas eleições de 2026.
Para o advogado eleitoral Alberto Rollo, a proposta cria mais uma ferramenta de comunicação para campanhas, mas exige atenção dos órgãos responsáveis pela fiscalização. “É mais um mecanismo de envio de propaganda eleitoral, mas sem dúvidas é mais uma porta para abusos e desvios, que vão necessitar de atuação da Justiça”, afirmou.
Segundo Rollo, uso da ferramenta impõe regras. “O número deverá estar cadastrado. Se partir de um número não cadastrado e isso ficar comprovado, o candidato ou partido pode ser multado e, no limite, poderá se falar em abuso”. A atuação do Ministério Público e da Justiça Eleitoral em casos de desinformação também permanece em vigor.
Do ponto de vista tecnológico, Rodrigo Galuzzi Garcia Piva, coordenador do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da Universidade Metodista de São Paulo, avalia que “o maior problema não é só a mensagem isolada, mas a organização da circulação de conteúdo político. Se você recebe uma mensagem no WhatsApp, geralmente acredita nela porque é um ambiente de confiança”, explicou.
Piva lembra que houve avanços desde as eleições de 2018, quando o aplicativo esteve no centro das discussões sobre fake news. Entre as mudanças estão limitações de encaminhamento de mensagens e mecanismos mais robustos de denúncia. “A mensagem falsa chega muito rápido aos usuários. Ela chega mais rápido do que a checagem, a denúncia ou a medida para retirar aquela informação. Em uma eleição, essa diferença de tempo tem um impacto extremamente relevante”, disse.
O professor, que também atua como pesquisador nas áreas de tecnologia, IA e desenvolvimento de software, avalia que uma eventual flexibilização das regras exige cautela. “O maior desafio é equilibrar a liberdade de comunicação com a proteção do eleitor. O candidato pode ter um canal de comunicação, mas ele não pode usar isso como um canal de manipulação ou de desinformação”, afirmou.
Na avaliação de Eduardo Grossi, professor dos cursos da área de Comunicação Social da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) e pesquisador de comunicação política, o aplicativo de mensagens instantâneas permanece como uma das ferramentas mais relevantes das campanhas eleitorais devido ao alcance e à capacidade de segmentação. “WhatsApp continua sendo uma ferramenta de comunicação muito poderosa na comunicação política”, afirmou.
Grossi observa que o envio em massa pode ampliar o alcance das campanhas, mas também atingir eleitores com pouca informação para avaliar criticamente o conteúdo recebido. “Aquele eleitor mais desavisado começa a prestar mais atenção, só que ele não tem informação suficiente para julgar determinadas informações que chegam até ele”, destacou.
O especialista aponta, ainda, a Inteligência Artificial como um novo elemento no cenário eleitoral. Segundo ele, a tecnologia amplia os desafios para a identificação de conteúdos manipulados e para a atuação dos órgãos de fiscalização. “A inteligência artificial vai chegar com criações de conteúdos que não vai ser possível definir se aquilo está correto do ponto de vista ético”, afirmou.
Para Grossi, a combinação entre novas tecnologias, mudanças nas regras e a força das plataformas digitais indica que o debate sobre comunicação política deverá ganhar ainda mais relevância nas eleições de 2026. Segundo o professor, a Justiça Eleitoral avançou na regulamentação do ambiente digital desde 2018, mas o surgimento de novas ferramentas e a tentativa de flexibilização das regras mantêm o tema no centro das discussões sobre o processo eleitoral.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.