Dependência Ministério da Fazenda aponta que 25,2 mi de brasileiros usam plataformas ilegais; em São Paulo, quatro a cada dez jogadores estão endividados
Denis Maciel/DGABC

As perdas financeiras causadas por apostas on-line somam R$ 38,8 bilhões por ano no Brasil. De acordo com Ministério da Fazenda, 25,2 milhões de brasileiros usam plataformas de jogos ilegais. O presidente Lula anunciou nesta sexta-feira (19) que o governo federal vai bloquear recursos de bets ilegais e enviar ao fundo de segurança pública. A medida será aplicada contra empresas que exploram apostas de forma irregular. Nesses casos, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda poderá notificar as instituições financeiras para bloquear os recursos ligados às atividades. Em São Paulo, quatro em cada dez jogadores estão endividados, aponta o Procon-SP.
“Block para o jogo ilegal! Os recursos bloqueados serão destinados ao Fundo Nacional de Segurança Pública e reforçarão o combate às estruturas financeiras do crime organizado no país”, reforçou Lula.
Os reflexos desse cenário de dependência já geram repercussões no Grande ABC. A procura por atendimento relacionado à dependência em apostas online nas unidades do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) registrou alta de 290% em um ano. Dados mostram que o grupo andreense, criado em janeiro de 2025, atendia em média 10 usuários no primeiro trimestre do ano passado. Já, no mesmo período de 2026, o número de pacientes com transtorno de ludopatia subiu para 39.
"Antes, eu jogava uma vez por semana, quando saía. Depois que vieram as bets, comecei a jogar em casa. Eu colocava limite no Pix, tentava criar barreiras. Comecei a virar a noite para esperar dar seis horas da manhã para conseguir movimentar dinheiro e jogar”, conta a pensionista Maria Souza (nome fictício), 54 anos.
Maria comenta que a dependência afetou sua convivência social e trouxe sofrimento intenso. “Comecei a me afastar dos meus amigos. Queria ir embora logo dos lugares. Depois, sentia muita vergonha e pensava: ‘o que eu fiz?’.”
O gasto mensal com plataformas regulamentadas já superou R$ 30 bilhões e pressionou 268 mil famílias à inadimplência severa desde 2023, segundo a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). O Ministério da Fazenda aponta que a maioria dos usuários ativos tem entre 18 e 29 anos (69% das pessoas) e vive com até dois salários mínimos, avaliados em R$ 3.242 (63%).
O frentista Luiz Henrique Fernandes, 23, relata que começou nas apostas esportivas, mas percebeu a gravidade da situação após conhecer os cassinos on-line em 2024. Ele ressalta que demorou para aceitar o tratamento porque acreditava que conseguiria controlar a situação sozinho. “Pensei que era brincadeira, coisa da minha cabeça, como muita gente fala. Acham que é falta de vergonha na cara, mas não é. É difícil admitir a situação.”
INFLUÊNCIA
A auxiliar de enfermagem Isabela Silva, 27, afirma que começou a apostar após ver divulgações nas redes sociais que prometiam dinheiro fácil. O problema se agravou no fim de 2023, quando perdeu montante que seria usado para comprar um apartamento com o marido. “Eu trabalhava muito e via as pessoas divulgando aquilo no Instagram como se fosse algo vantajoso, fácil de ganhar dinheiro. Parecia uma oportunidade de conseguir renda. Não percebia o tamanho do problema. Quase entrei em depressão, sentia muita ansiedade. Perdi a vontade de viver.”
Entre as medidas anunciadas pelo governo federal, está o fato de que influenciadores digitais que fazem propagandas de plataformas de apostas on-line serão responsabilizados judicialmente. A União aponta que haverá sanções administrativas da SPA (Secretaria de Prêmios e Apastas), cobrança de Imposto de Renda da Receita Federal e também tributos como PIS (Programa de Integração Social) e Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social).
A psicóloga do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) AD (Álcool e Drogas) de Santo André, Juliana Yamada, aponta que deixa de ser um hábito recreativo quando começa a afetar a rotina. “Há a ilusão de que vão conseguir mudar de vida rapidamente. Isso para de ser lazer quando existe o isolamento. A pessoa passa muito tempo nas apostas e começa a ter sintomas depressivos.”
Todos os nomes usados nessa reportagem são fictícios para preservar a identidade dos entrevistados.
LEIA TAMBÉM:
Febraban elogia medida do governo para regulamentar bloqueio de recursos de bets ilegaisDurigan: Quase 700 mil pessoas usaram recurso de autoexclusão
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, informou nesta sexta-feira que quase 700 mil pessoas pediram para serem incluídas na ferramenta de autoexclusão do governo federal de aplicativos e sites de apostas on-line. Com o recurso lançado em dezembro de 2025, o individuo é bloqueado de todas as plataformas e não recebe mais notificações delas. O site é gov.br/autoexclusaoapostas.
Segundo a União, o sistema permite “bloquear o acesso a todas as casas de apostas federais autorizadas por um período mínimo de um mês” para proporcionar oportunidades de “reflexão, busca do bem-estar e cuidado com a saúde emocional e financeira”.
A plataforma oferece duas opções, com autoexclusão por prazo determinado (de um, três, seis, nove ou 12 meses); e por tempo indeterminado (superior a um ano e sem data definida para encerramento). Assim que a casa de apostas identifica que o apostador solicitou a autoexclusão, ela deve encerrar a conta deste em até três dias.
Entre os principais sinais de alerta em relação à dependência em apostas estão mudanças emocionais, como ansiedade, irritabilidade, insônia e sensação de perda de controle quando a pessoa não está jogando. Há, ainda, sinais comportamentais, como mentiras sobre o valor gasto, dificuldade em controlar o tempo dedicado aos jogos, pensamentos constantes sobre apostas e tentativas imediatas de recuperar dinheiro perdido após derrotas. “A pessoa que sofre com compulsão por jogos pode procurar atendimento diretamente no Caps (Centro de Atenção Psicossocial) sem necessidade de encaminhamento. Ela será acolhida por um profissional de saúde que deverá organizar o cuidado e o tratamento a partir das complexidade do caso”, explica a gerente do Caps AD (Álcool e Drogas) de Santo André, Patricia Teixeira.
O cuidado oferecido envolve uma equipe multidisciplinar, formada por psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, farmacêuticos, educadores físicos, terapeutas ocupacionais, arte-educadores, médicos etc. “Os atendimentos acontecem de forma integrada, principalmente em grupos e atividades coletivas, embora também possam ocorrer acompanhamentos individuais em situações específicas, conforme a avaliação do profissional de referência”, ressalta Patrícia. A unidade fica na Rua Venezuela, 101, Jardim Bela Vista.
Em São Caetano, os pacientes são atendidos no Caps AD Zoraide Maria Rampasso, localizado na Rua dos Castores, número 10. Em Diadema, o auxílio ocorre no Caps na Rua Coimbra, 786, e nas UBSs (Unidades Básicas de Saúde). Em Ribeirão Pires, pessoas com compulsão em jogos de azar são atendidas no Caps AD da Rua Virgílio Gola, 24. Já em Rio Grande da Serra, o acolhimento ocorre na undiade da Rua Prefeito Carlos José Carlson, 9. As prefeituras de Mauá e São Bernardo não responderam aos questionamentos da reportagem até a publicação desta matéria.
(Colaborou Beatriz Mirelle)
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.