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Como evitar a armadilha do consumo

Thelma Ribeiro
18/06/2026 | 09:17
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FOTO: DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


O endividamento deixou de ser apenas um problema financeiro. Hoje, ele nasce também de um ambiente desenhado para estimular impulsos, reduzir barreiras e transformar desejo em compra em poucos segundos. Se antes sacar dinheiro, ir até uma loja e entregar notas físicas criava uma percepção concreta de gasto, o consumo digital dissolveu quase completamente essa sensação. Um clique basta. O cartão já está salvo. A compra é silenciosa, rápida e emocional.

Uma cena do filme Um senhor estagiário, com Robert de Niro e Anne Hathaway, tem uma sequência no escritório de uma startup de moda on-line em que eles acompanham, em tempo real, os consumidores no site. A equipe observa quando uma cliente coloca um item no carrinho, hesita e depois finalmente conclui a compra. Quando a venda acontece, o escritório inteiro comemora. 

É difícil combater o consumo impulsivo quando existe um sistema inteiro operando para produzi-lo. Plataformas digitais, algoritmos e estratégias de marketing foram criadas para perseguir atenção, reduzir tempo de reflexão e transformar emoção em compra. Não se trata apenas de publicidade, mas de mecanismos que monitoram comportamento, identificam vulnerabilidades e estimulam sensação permanente de urgência, recompensa e pertencimento. Nesse cenário, responsabilizar exclusivamente o indivíduo pelo endividamento é ignorar a voracidade de um mercado que lucra com o excesso, a ansiedade e o consumo contínuo.

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Dados do Banco Central indicam que as famílias brasileiras comprometem, em média, 29,7% da renda com dívidas, parcelas e juros e a Confederação Nacional do Comércio aponta que mais de 80% das famílias estejam endividadas. 

A chamada experiência frictionless, sem atrito, eliminou etapas que antes davam tempo para reflexão. Hoje, o consumidor é estimulado a agir antes de pensar especialmente em momentos de vulnerabilidade emocional: solidão, estresse, frustração ou sensação de merecimento depois de dias difíceis.

Por isso, educação financeira já não pode ser ensinada apenas como planilha ou cálculo. Ela precisa incluir comportamento e consciência digital.

Pequenas estratégias ajudam a reconstruir barreiras de proteção: apagar cartões salvos em aplicativos, remover apps de compras do celular, adotar a regra das 24 horas antes de adquirir algo não essencial e criar prestação de contas com alguém de confiança.

Blindar a mente diante dos algoritmos é também ensinar as novas gerações a reconhecer que consumo não pode ser confundido com acolhimento.

Em um mundo desenhado para acelerar o desejo, resistir é uma forma de inteligência financeira. Todo ‘não’ para uma satisfação imediata pode ser um ‘sim’ para objetivos e conquistas que realmente importam.

Thelma Ribeiro é diretora de módulos internacionais da Strong Business School.




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