Artigo
FOTO: DGABC

O endividamento deixou de ser apenas um problema financeiro. Hoje, ele nasce também de um ambiente desenhado para estimular impulsos, reduzir barreiras e transformar desejo em compra em poucos segundos. Se antes sacar dinheiro, ir até uma loja e entregar notas físicas criava uma percepção concreta de gasto, o consumo digital dissolveu quase completamente essa sensação. Um clique basta. O cartão já está salvo. A compra é silenciosa, rápida e emocional.
Uma cena do filme Um senhor estagiário, com Robert de Niro e Anne Hathaway, tem uma sequência no escritório de uma startup de moda on-line em que eles acompanham, em tempo real, os consumidores no site. A equipe observa quando uma cliente coloca um item no carrinho, hesita e depois finalmente conclui a compra. Quando a venda acontece, o escritório inteiro comemora.
É difícil combater o consumo impulsivo quando existe um sistema inteiro operando para produzi-lo. Plataformas digitais, algoritmos e estratégias de marketing foram criadas para perseguir atenção, reduzir tempo de reflexão e transformar emoção em compra. Não se trata apenas de publicidade, mas de mecanismos que monitoram comportamento, identificam vulnerabilidades e estimulam sensação permanente de urgência, recompensa e pertencimento. Nesse cenário, responsabilizar exclusivamente o indivíduo pelo endividamento é ignorar a voracidade de um mercado que lucra com o excesso, a ansiedade e o consumo contínuo.
Dados do Banco Central indicam que as famílias brasileiras comprometem, em média, 29,7% da renda com dívidas, parcelas e juros e a Confederação Nacional do Comércio aponta que mais de 80% das famílias estejam endividadas.
A chamada experiência frictionless, sem atrito, eliminou etapas que antes davam tempo para reflexão. Hoje, o consumidor é estimulado a agir antes de pensar especialmente em momentos de vulnerabilidade emocional: solidão, estresse, frustração ou sensação de merecimento depois de dias difíceis.
Por isso, educação financeira já não pode ser ensinada apenas como planilha ou cálculo. Ela precisa incluir comportamento e consciência digital.
Pequenas estratégias ajudam a reconstruir barreiras de proteção: apagar cartões salvos em aplicativos, remover apps de compras do celular, adotar a regra das 24 horas antes de adquirir algo não essencial e criar prestação de contas com alguém de confiança.
Blindar a mente diante dos algoritmos é também ensinar as novas gerações a reconhecer que consumo não pode ser confundido com acolhimento.
Em um mundo desenhado para acelerar o desejo, resistir é uma forma de inteligência financeira. Todo ‘não’ para uma satisfação imediata pode ser um ‘sim’ para objetivos e conquistas que realmente importam.
Thelma Ribeiro é diretora de módulos internacionais da Strong Business School.
Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.