Direito Além da regularização, é necessário apresentar à Previdência documentos que comprovem o vínculo e o período trabalhado
Nario Barbosa/DGABC

Para milhares de trabalhadores brasileiros que planejam a aposentadoria pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) uma das principais dúvidas é se vale a pena regularizar contribuições previdenciárias em atraso. Embora a medida possa parecer uma solução rápida para completar o tempo necessário e garantir o benefício, especialistas alertam que a decisão exige cautela e planejamento.
À primeira vista, a lógica parece simples: emitir as guias em atraso, quitar os débitos e aumentar o tempo de contribuição. Na prática, porém, a situação é mais complexa e pode envolver riscos previdenciários, financeiros e até mesmo tributários.
Segundo o advogado Rusla Stuchi, sócio do Stuchi Advogados, os contribuintes individuais, autônomos e microempreendedores podem recolher contribuições em atraso, mas não basta apenas efetuar o pagamento. “Para períodos em atraso, o INSS exige a comprovação de que houve efetivo exercício de atividade remunerada. Notas fiscais, contratos, recibos, declarações de Imposto de Renda, extratos bancários e outros documentos podem ser solicitados. Sem essa comprovação, o período pode não ser reconhecido para fins de aposentadoria”, explica.
O advogado destaca que, quando o atraso supera cinco anos, as exigências se tornam ainda mais rigorosas. Nesses casos, além da análise documental detalhada, o segurado pode enfrentar dificuldades para validar o tempo de contribuição junto ao INSS.
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Para os trabalhadores com carteira assinada, a situação é diferente. Quando a empresa deixa de recolher as contribuições previdenciárias, a responsabilidade é do empregador. Nesses casos, o trabalhador pode buscar o reconhecimento do vínculo e dos recolhimentos por meio das vias administrativas ou judiciais, inclusive por meio de ação trabalhista.
Outro equívoco frequente é acreditar que o pagamento de contribuições em atraso resultará automaticamente em uma aposentadoria mais elevada.
De acordo com o advogado Celso Jorgetti, da Advocacia Jorgetti, o valor do benefício depende de diversos fatores e não apenas do pagamento de contribuições recentes. “O cálculo da aposentadoria considera a média dos salários de contribuição ao longo da vida laboral. Em muitos casos, recolher valores elevados próximos da aposentadoria gera impacto reduzido no benefício final, especialmente quando o histórico contributivo é composto por salários mais baixos”, afirma.
O especialista frisa que os recolhimentos em atraso são acrescidos de juros e multa, o que pode tornar a regularização significativamente mais cara. Dependendo do período a ser pago e do valor das contribuições, o custo pode não compensar o ganho previdenciário esperado.
Planejamento é sempre a melhor solução
Os especialistas também alertam para um aspecto frequentemente ignorado: os reflexos tributários da regularização das contribuições.De acordo com Ruslan Stuchi, pagamentos expressivos de INSS em atraso podem exigir a retificação de declarações de Imposto de Renda referentes aos anos correspondentes. “Ao reconhecer contribuições previdenciárias de períodos anteriores, o contribuinte pode acabar revelando rendimentos que não foram devidamente informados à Receita Federal na época. Dependendo do caso, isso pode gerar questionamentos fiscais, cobrança de tributos, juros e multas”, ressalta.
Por isso, a regularização das contribuições deve ser precedida de uma análise cuidadosa, levando em consideração não apenas o impacto na aposentadoria, mas também os possíveis efeitos tributários. Antes de decidir pagar o INSS em atraso, especialistas recomendam a realização de um planejamento previdenciário completo. A análise deve considerar o tempo que falta para a aposentadoria, o custo da regularização, a possibilidade de utilização de outros períodos contributivos e o impacto efetivo no valor do benefício.
“É fundamental simular diferentes cenários no Meu INSS e buscar orientação especializada. Cada histórico contributivo possui características próprias, e uma decisão aparentemente vantajosa pode não produzir o resultado esperado”, afirma o advogado Thiago Luchin, sócio do Aith, Badari e Luchin Advogados.
A recomendação dos especialistas é clara: antes de investir recursos para regularizar contribuições em atraso, o segurado deve verificar se o período poderá ser efetivamente reconhecido pelo INSS e se o retorno previdenciário justifica o custo envolvido. “Em matéria de aposentadoria, planejamento e informação continuam sendo os melhores aliados”, reforça Stuchi.<TL>
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