Palavra do Bispo O quinto mandamento da Lei de Deus (Ex 20,13; Mt 5,21) continua atual, mas tão desobedecido, que para muitos parece coisa do passado. Há uma “normalização” da conduta criminosa. A vida humana, porém, é sagrada, porque desde sua origem encerra a ação criadora de Deus. Só Deus é autor e dono da vida, do começo ao fim. Isto está escrito no consciente e no inconsciente do ser humano.
O testemunho bíblico o atesta desde o relato dos dois irmãos, Caim e Abel, este último assassinado pelo outro. O homem se tornou, desde então, inimigo de seu semelhante (Gn 4, 10-11). O assassinato voluntário é gravemente contrário à dignidade do ser humano, também as ações que favorecem ou promovem indiretamente a morte do semelhante.
No sermão da Montanha, Jesus recorda o preceito de não matar e acrescenta a proibição da cólera, do ódio e da vingança. Mais ainda, ele diz aos discípulos que ofereçam a outra face e amem seus inimigos. Mesmo sofrendo violência extrema e a condenação injusta de morrer na cruz, não se defendeu e disse a seu discípulo Pedro para deixar a espada, porque, “quem com ferro fere com ferro será ferido.”
Estamos, hoje, em uma sociedade violenta que atenta contra a vida das pessoas de várias maneiras: há um recrudescimento do feminicídio, da violência doméstica e dos casos de violência no trânsito. Entre nós, aqui no Grande ABC, cresce a violência física contra menores (cf. Diário – Setecidades, 04/06/2026 p.1). A violência tem ocorrido em todas as classes sociais e faixas etárias. São quatro as cidades do Grande ABC, entre as vinte do Estado, com maior taxa de homicídio, segundo o Atlas da Violência – 2026.
Infelizmente nossa região é violenta e isto tem de mudar. Precisa de uma resposta articulada do poder público, melhoria na área da segurança pública, geração de renda, políticas públicas focadas no bem comum, promoção de vida digna para a população mais pobre, combate à impunidade.
Sobretudo, é necessário diminuir a corrupção, acabando com o “patrimonialismo” que é um vício bem brasileiro: confusão entre o dinheiro público e o privado. “Desde os tempos das Capitanias Hereditárias, as elites que governam o Brasil não fazem distinção entre o bem público e o bem privado. Apropriam-se do Estado para seu proveito, e se esquecem do interesse comum” (Celso Ming).
Contudo, para que a violência diminua e a vida seja preservada, é necessário, sobretudo, investir na educação. Do contrário, vamos ficar “enxugando gelo”, sabendo ficar onde estamos, sem saber para onde irmos. E se acaso soubéssemos para onde irmos, não teríamos como trilhar o caminho. Somente a educação para todos e educação de qualidade dão dignidade à vida, preservando-a e fazendo diminuir a violência, por um convencimento interno da pessoa, e não tanto pela força ou pressão.
A educação cria no indivíduo uma consciência social, uma ética da responsabilidade e do cuidado, capazes de formar cidadãos comprometidos com a sociedade, além dos próprios interesses individuais. Por isso, é preciso um processo educacional focado não só em princípios científicos, como se o aprendiz fosse uma máquina, mas focado também em princípios morais, capazes de formar pessoas.
Enfim, ao lembrar o preceito “tu não matarás”, Jesus pede a paz no coração, porque é no coração de cada um que se inicia a cólera e o ódio, dos quais brotam as guerras. E para ter paz no coração, é preciso Deus habitando nele.
A fé em Deus nos faz vencer as forças poderosas opostas ao plano de Deus, que é vida para todos. Estas forças promovem o mal e a destruição, mas a fé em Deus, que supera todo entendimento, nos dá a certeza de que Deus vence toda forma de mal, dando à vida a última palavra. Para isso, Ele quer nossa colaboração para vencermos com Ele “a banalidade do mal” (Hannah Arendt) que estraga a sociedade humana.
Recordamos, para terminar, as palavras de Jesus: “Felizes os que promovem a paz e são mansos de coração, porque herdarão a terra e serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,1-9).
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