Mais Gestão, menos polarização
Gilmar

O episódio ocorrido nesta semana na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo vai muito além de uma divergência política ou de um embate parlamentar. Não se trata de esquerda ou direita, de governo ou oposição, tampouco de concordar ou discordar do tema debatido na reunião. O que esteve em evidência foi algo mais profundo: o respeito às instituições e, sobretudo, o respeito às mulheres que ocupam espaços de liderança.
A democracia pressupõe o debate. O contraditório é parte essencial da atividade política. Parlamentos existem justamente para que ideias diferentes possam se confrontar de forma civilizada, respeitosa e dentro das regras estabelecidas. Quando esse limite é ultrapassado e a divergência dá lugar à intimidação, ao desrespeito ou à tentativa de constranger quem exerce legitimamente uma função de autoridade, não estamos diante de um simples conflito político. Estamos diante de um problema que precisa ser enfrentado pela sociedade.
Foi nesse contexto que a deputada estadual Ana Carolina Serra demonstrou firmeza, equilíbrio e maturidade ao conduzir os trabalhos da Comissão de Assuntos Metropolitanos e Municipais da Assembleia Legislativa. Na condição de presidente da comissão, cumpriu rigorosamente seu papel institucional, preservando a ordem dos trabalhos e garantindo o respeito ao Regimento Interno da Casa.
O que deveria ser algo absolutamente natural — uma mulher exercendo a autoridade conferida pelo cargo que ocupa — infelizmente ainda desperta reações incompatíveis com os tempos em que vivemos. Isso revela que o machismo continua presente em muitos ambientes, inclusive em espaços que deveriam dar exemplo à sociedade.
A presença feminina na política brasileira cresceu nas últimas décadas, mas ainda enfrenta obstáculos que vão muito além das disputas eleitorais. Mulheres são frequentemente submetidas a questionamentos, interrupções, ataques pessoais e tentativas de deslegitimar sua autoridade de uma forma que raramente ocorre com homens que ocupam posições equivalentes.
Essa realidade não afeta apenas as mulheres que estão na política. Ela envia uma mensagem negativa para todas aquelas que desejam ocupar espaços de liderança na sociedade, seja no setor público, no setor privado, na academia ou em qualquer outra área. Por isso, cada episódio de desrespeito precisa ser debatido e enfrentado.
Ao mesmo tempo, é importante destacar que a melhor resposta ao preconceito não é o confronto estéril, mas a demonstração de competência, serenidade e preparo. Foi exatamente isso que ocorreu. Diante das tentativas de tumulto e interrupção, prevaleceram a autoridade institucional, o equilíbrio e o respeito às regras democráticas.
Esse episódio também nos convida a uma reflexão mais ampla. O Brasil avançou muito em diversas áreas, mas ainda convive com comportamentos que não podem mais ser tolerados. O respeito às mulheres não pode ser uma bandeira de ocasião nem uma pauta restrita a determinados grupos. Trata-se de um valor democrático fundamental.
Uma sociedade verdadeiramente moderna é aquela que reconhece as pessoas por sua capacidade, por seu trabalho e por sua contribuição coletiva, independentemente de gênero. Quando uma mulher é desrespeitada por exercer uma função de liderança, não é apenas ela que é atingida. É a própria ideia de igualdade que sofre um ataque.
Felizmente, há momentos em que os fatos falam mais alto do que qualquer discurso. E o que ficou evidente ao final daquele episódio foi que a autoridade legítima prevaleceu sobre a tentativa de intimidação. A institucionalidade venceu o tumulto. O respeito venceu o desrespeito.
Por isso, a principal lição que permanece não é sobre uma vitória individual ou uma derrota pessoal. É sobre um valor que precisa ser reafirmado diariamente em nossa sociedade: ninguém deve ser diminuído, constrangido ou desrespeitado por ocupar legitimamente um espaço de liderança. Ao final, a conclusão é simples e poderosa. Não foi uma deputada que venceu uma discussão. Foi o respeito que venceu a intolerância. Foi a democracia que venceu a intimidação. E foi o machismo que saiu derrotado
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