Engajamento Comunicação migra para vídeos, fiscalizações filmadas e interação em tempo real; movimento levanta debate sobre a política performática
Denis Maciel, Celso Luiz e André Henriques/DGABC

A política das sete cidades já não acontece apenas nas sessões das câmaras ou nos gabinetes. Cada vez mais passa também pelo celular. Vídeos curtos, transmissões ao vivo, fiscalizações gravadas e respostas imediatas nas redes sociais integram a rotina de vereadores do Grande ABC, em uma transformação que altera a forma como os mandatos se comunicam com a população.
A mudança é percebida tanto por parlamentares quanto por especialistas em Comunicação e Ciência Política. Hoje, vereadores utilizam Instagram, Facebook e TikTok não apenas para divulgar ações, mas como ferramenta de prestação de contas, aproximação com moradores e construção de imagem pública.
A vereadora Ana Veterinária (PSD), de Santo André, destaca que as redes deixaram de ser apenas espaço de divulgação e se tornaram uma ferramenta de trabalho. Segundo a pessedista, demandas chegam diariamente por mensagens, comentários e vídeos enviados pela população.
Para a parlamentar, os vídeos curtos ajudam a traduzir temas complexos e aproximam os moradores da política municipal. “Hoje as pessoas esperam mais proximidade, mais transparência e respostas mais rápidas”, detalha Ana Veterinária.
O parlamentar Denis Gambá (Solidariedade), de Santo André, destaca que, hoje, a palavra de ordem é transparência. “Por ser um canal direto e acessível, consigo mostrar as indicações encaminhadas ao Executivo, os projetos de lei, as ações nos bairros e o trabalho do gabinete”, pontua o parlamentar, que ainda afirma manter publicações diárias e realizar lives mensais de prestação de contas para aproximar os moradores do trabalho legislativo.
Já o vereador Cabo Angelo (MDB), de Diadema, afirma que as redes sociais democratizaram a comunicação pública e permitem que o cidadão acompanhe o mandato “em tempo real”. Segundo o emedebista, boa parte das demandas do gabinete nasce justamente desse contato digital com os moradores. “O vereador moderno, em 2026, não pode ficar restrito ao gabinete ou à cadeira no plenário.”
Apesar da aproximação, especialistas alertam para os efeitos da lógica de engajamento nas redes. O professor e diretor de Marketing da Universidade Metodista, Fábio Eloi de Oliveira, avalia que a política passou a disputar atenção em um ambiente dominado por algoritmos, viralização e conteúdos rápidos.
Para o docente, existe uma tendência crescente de políticos produzirem conteúdos pensando mais na repercussão do que no debate público. “Quem não está ON não é visto, quem não é visto não é lembrado”, alerta o professor ao explicar a pressão constante por presença digital.
Oliveira também vê com preocupação a superficialidade provocada pelos vídeos curtos. “Temas densos acabam se tornando entediantes dentro dessa lógica imediatista”, diz.
Na mesma linha, o cientista político Cláudio Penteado analisa que as redes criaram um cenário de “campanha permanente”, no qual os vereadores produzem conteúdos continuamente para gerar engajamento e fortalecer a própria imagem pública.
Segundo o especialista, os algoritmos favorecem conteúdos com forte apelo emocional e conflitos políticos, o que pode estimular uma comunicação mais performática e menos técnica. “Os vereadores buscam produzir conteúdos para gerar engajamento, sem ter preocupação com a qualidade do debate”, conclui.
Mesmo entre os próprios vereadores, há diferentes visões sobre a centralidade das redes sociais. Alexandre Vieira (Avante), de Mauá, reconhece que as plataformas ajudam na aproximação com os eleitores, mas afirma manter um estilo mais tradicional de atuação política. “Ainda sou do modo antigo, de ir nas casas e comércios dos eleitores”, declarou.
O parlamentar César Oliva (PSD), de São Caetano, diz que as redes sociais se tornaram imprescindíveis para a política atual. “Quanto mais o tempo passa, mais as pessoas estão preferindo a comunicação on-line em vez de presencialmente no gabinete.” Segundo ele, além de se informarem pelas plataformas, os moradores também passaram a utilizá-las como principal canal de contato com os parlamentares, seja por comentários ou mensagens privadas.
Oliva também avalia que o eleitor espera respostas cada vez mais rápidas nas redes sociais, característica da política digital. “Estamos num momento de imediatismo bem latente no que tange às redes sociais”.
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