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Burocracia, juros e falta de mão de obra preocupam indústria

Em meio a alertas do setor, diretores de unidades do Ciesp no Grande ABC celebram potencial da região para se reinventar

Beatriz Mirelle
25/05/2026 | 08:16
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FOTO: André Henriques/DGABC
FOTO: André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Os dois cortes sucessivos anunciados em 2026 pelo Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central na Selic, que agora está em 14,5% ao ano, não foram capazes de aliviar de maneira incisiva os problemas que as altas taxas de juros geram na indústria da região. Nessa balança, burocracia, procura por mão de obra qualificada para o chão de fábrica e falta de terrenos para expansão de plantas se tornam pontos de atenção. 

Por outro lado, diretores das regionais do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) no Grande ABC celebram hoje, no Dia da Indústria, o potencial das empresas locais para se reinventarem diante das oscilações econômicas e avanços tecnológicos. Destacam, ainda, a capacidade das companhias de se adequarem às tendências sustentáveis, que se transformaram em diferencial competitivo. 

Ao todo, a região tem 420.088 empresas, sendo 13,8% do setor da indústria (58.037), que perde protagonismo para serviços (285.358 ou 68%) e comércio (76.107 ou 18,1%), como expõe o IPC Maps deste ano.

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O diretor do Ciesp Santo André, Eduardo Batistella Mazurkyewistz, aponta que a região sempre teve vocação industrial e continua sendo um dos polos mais relevantes do País, mas hoje a competitividade exige muito mais do que escala produtiva. “Temos infraestrutura, localização estratégica, tradição industrial e capital humano. Apesar disso, precisamos criar um ambiente mais favorável para novos investimentos e para a expansão das empresas já instaladas aqui. São necessárias velocidade de adaptação, qualificação de mão de obra e capacidade de integrar tecnologia aos processos industriais.”

Segundo o diretor Mauro Peres, do Ciesp São Caetano, lidar com os juros e encontrar novos funcionários são as “dores” do setor. A próxima decisão sobre a Selic está agendada para 16 e 17 de junho. “Concorremos com serviços autônomos, entregas por aplicativo, que atraem pela jornada flexível e chance de salário maior.”

Em meio às questões gerais do mercado, Peres aponta que a cidade passa por problemas específicos de estrutura. “Já não há terrenos disponíveis para o crescimento das empresas. A indústria está limitada àquele tamanho que ela tem hoje. Se ela crescer, tem que sair de São Caetano. Se for para outro município do Grande ABC, tudo bem, porque mantém o investimento aqui, porém elas também começam a deixar a região. Impacta em tributos e geração de emprego e renda. Em futuro, podemos ser uma cidade-dormitório.”

O diretor da regional de São Bernardo, Mauro Miaguti, elenca a necessidade de mais aportes em capacitação e a alta tributação como problemas gerais. “Vejo que faltam financiamentos. A Alemanha, por exemplo, investe muito em pesquisa e desenvolvimento para que as indústrias sejam mais competitivas.”

De acordo com ele, há demora para acessar recursos do Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). “O processo é burocrático. Mas, ao mesmo tempo, nós temos grandes oportunidades, fomentadas pela criatividade e resiliência das empresas nacionais que se desenvolvem mesmo diante do cenário difícil”, aponta.

Para o diretor do Ciesp de Diadema, José Adolfo Gazabin Simões, a burocracia influencia um “aumento de custo terrível” para gerir a complexidade dos sistemas tributários. “Licenciamentos municipais e ambientais têm alta complexidade e demandam horas de trabalho, onerando as empresas industriais de uma maneira maior, principalmente quando comparada a países já desenvolvidos industrialmente maiores do que nós.”

Ele indica que escassez de mão de obra já é uma crise nacional. “Temos dificuldade de contratação e retenção de funcionários e operadores. Isso em função da modernização, dos diversos tipos de empregos disponíveis, da cultura do jovem quanto relacionado a um trabalho formal, de não querer ficar preso por tantas horas dentro de uma fábrica.”

Gazabin Simões pontua que a integração de diferentes atores sociais, como universidades e poderes público e privado, são capazes de ajudar a criar estratégias para amenizar os empecilhos do setor.

Sustentabilidade é exigência estratégica

Na busca por retomar a força industrial no Grande ABC, a sustentabilidade se impõe como pilar para explorar o potencial competitivo das empresas. Segundo pesquisa da Nexus, encomendada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), 80% dos executivos brasileiros defendem o uso sustentável da biodiversidade como ativo estratégico e 70% consideram a bioeconomia necessária para o futuro do setor. 

Para o diretor do Ciesp Santo André, Eduardo Batistella Mazurkyewistz, isso deixou de ser tendência e passou a ser exigência. “Muitas companhias da região já investem em eficiência energética, redução de resíduos, economia circular, reaproveitamento de materiais, energia limpa e processos produtivos mais sustentáveis. Existe pressão crescente dos próprios clientes e das cadeias globais por fornecedores alinhados a isso. Quem não acompanhar, corre o risco de perder mercado nos próximos anos.”

Mazurkyewistz destaca que o tema deve ser trabalhado como oportunidade, não entrave. “Não pode ser apenas um custo adicional, mas sim ganho de eficiência e geração de valor para os negócios. Precisamos garantir que essa transição aconteça de forma equilibrada e viável economicamente, em especial para pequenas e médias empresas.”




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