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Pacientes da 1ª clínica pública de cannabis do Brasil apresentam melhora dos sintomas

Ribeirão Pires é pioneira no atendimento gratuito a pessoas com autismo e outras comorbidades

24/05/2026 | 10:45
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André Henriques/DGABC
André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra


Em iniciativa pioneira, a Prefeitura de Ribeirão Pires inaugurou, em março de 2025, em parceria com a Associação Flor da Vida, a primeira clínica pública de cannabis medicinal do Brasil. Desde então, o equipamento atendeu 500 pacientes com TEA (Transtorno do Espectro Autista), alzheimer, parkinson, epilepsia e fibromialgia. Atualmente, 300 pessoas estão em tratamento na unidade. 

Diagnosticado com TEA e TOD (Transtorno Opositor Desafiador), Matheus Godoy da Silva Lima, 8 anos, faz tratamento com óleo feito à base da planta e apresentou melhora significativa nos sintomas, de acordo com sua mãe, a promotora de vendas Lídia Godoy, 37. “Faz um ano que conseguimos sair, antes não dava, entrava no Uber já pedindo desculpa. Ele hoje é outra criança”, comemora. 

Lídia diz que, apesar de o filho ainda ter seletividade alimentar, sua evolução tem sido cada vez maior. “Ele passou a aceitar e experimentar alguns alimentos, agora come maçã, morango e banana, frutas que ele não aceitava. E não comia na frente de outras pessoas também”, conta. 

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Autista nível 3 de suporte, Ramon Tanaka Moura, 5, apresenta bastante agitação e agressividade. “A cannabis mudou a nossa vida. Vinte dias depois que começou a usar o óleo, já deu diferença. Ele sempre dormia pouco e se machucava, agora está mais calmo. Era muito difícil sair com ele. O tratamento também ajudou nas convulsões”, afirma a mãe e dona de casa Paula Tanaka de Castro, 40.

O médico responsável pela Clínica Pública de Cannabis Medicinal, Laerte Rodrigues, explica que a terapia canabinoide não cura, mas ajuda a controlar os sintomas. “É muito gratificante e satisfatório ver os resultados. A cannabis consegue reduzir o estresse, os pensamentos acelerados e ajuda a proporcionar um sono mais reparador. A melhora é de 10% a 90%, cada paciente reage de uma forma e a concentração pode ser ajustada.”

Em pacientes com dor crônica, como no caso da fibromialgia, a medicação é analgésica e um modulador do processo inflamatório. “Ajuda a diminuir a intensidade da dor, a sensibilidade e a frequência das crises. Há pessoas que não conseguem sair de casa devido ao intenso desconforto. Não elimina a dor, mas a ameniza e reduz o sofrimento, proporcionando mais disposição”, destaca Laerte Rodrigues.

O médico ressalta que, em casos de doenças neurodegenerativas, a exemplo do alzheimer, não é possível recuperar a memória, mas a terapia ajuda a criar novas sinapses cerebrais que vão dar a oportunidade do paciente reaprender. Além disso, controla fases da agressão e melhora o bem-estar.

IMPLANTAÇÃO

Instalada em área concedida pelo poder público municipal, no Centro Ibrahim Alves de Lima – ao lado da Fábrica de Sal, a clínica oferta gratuitamente óleos feitos à base da planta para moradores da cidade com prescrição médica das cinco doenças tratadas na unidade. A lista de comorbidades deverá ser ampliada, segundo Laerte Rodrigues. 

O responsável pela clínica foi um dos maiores incentivadores do pioneirismo da terapia canabinoide no município. “Trouxe a ideia para o Clovis Volpi (PSD), em 2020, antes mesmo dele ser eleito prefeito. Entre 2021 e 2022 desenvolvemos a criação da lei e fomos a primeira cidade do Estado. O projeto, proposto pelo atual prefeito Guto Volpi (PL), então vereador, foi um grande ato de coragem pelo preconceito em torno do assunto”, explica o médico. 

A lei municipal número 6.737, específica para implantação de Política Municipal de medicamentos formulados de derivado vegetal à base de canabidiol, em associação com outras substâncias canabinoides, foi criada em março de 2022. “Já tínhamos a legislação, aí a Associação Flor da Vida procurou o Consórcio (Intermunicipal do Grande ABC), que disse para este assunto Ribeirão Pires estava mais adiantado porque já tinha lei. Então começamos a negociar com eles”, lembra Rodrigues.

Guto Volpi destaca a importância do projeto. “Em Ribeirão Pires plantamos uma semente importante e seguimos dialogando com outras cidades sobre essa experiência pioneira. A parceria com a Flor da Vida está transformando o dia a dia de muitas pessoas, levando qualidade de vida para quem, há anos, já havia perdido a esperança. E a verdadeira importância desse projeto são os resultados na prática, relatos de famílias que estão tendo suas vidas transformadas por conta desse tratamento que tivemos a coragem de implantar”, enfatiza. 

Agentes realizam 114 mil visitas domiciliares com foco na prevenção

Os 51 agentes comunitários de saúde de Ribeirão Pires realizaram, em 2025, 114 mil visitas domiciliares. No primeiro quadrimestre deste ano, foram 35 mil atendimentos. Esses profissionais têm formação técnica para fazer procedimentos como aferição de pressão e teste para controle de glicemia, pois hipertensos e diabéticos estão entre os pacientes com maior risco de complicações.

A enfermeira Lilian Shizue Kawakami Ribeiro, que está na Secretaria de Saúde há duas décadas e também atuou como coordenadora da enfermagem na Atenção Básica, avalia que este é um dos trabalhos mais importantes do SUS (Sistema Único de Saúde). “Quando há prevenção, evitam-se sequelas e óbitos. É a porta de entrada para impedir consequências mais graves à saúde.”

O programa Estratégia da Saúde da Família acompanha 85.978 pessoas em Ribeirão Pires. O município faz busca ativa e ações de conscientização sobre a vacinação. Em 2025, foram aplicadas 78.950 doses. 

As 11 UFS (Unidades da Saúde da Família) totalizaram 103 mil atendimentos. “A organização do SUS é exemplar, pois trabalha para garantir a recuperação do paciente e evitar novos atendimentos, ao contrário da rede privada, que muitas vezes impõe barreiras para procedimentos de alto custo. O sistema abraça o paciente desde a parte básica até as questões mais complexas”, enfatiza Lilian.

Novo Hospital São Lucas traz autonomia com leitos de UTI

A nova sede do Hospital São Lucas, inaugurada em setembro de 2024, garantiu mais autonomia para o município e conforto aos pacientes. Pela primeira vez em sua história, a cidade passou a ter 11 leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Foram destinados R$ 29,5 milhões para a construção do prédio de três pavimentos, sendo R$ 2 milhões da gestão municipal. 

“É o maior ganho que tivemos no município na parte hospitalar. Quem vivia na sala de emergência da UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Santa Luzia 24 horas sabe a dificuldade que era. Esperávamos dias por uma vaga em outra cidade, o que poderia agravar o quadro do paciente. Poder receber um paciente grave, dar uma boa assistência e vê-lo voltando para casa é algo que não tem preço”, avalia o diretor médico do Hospital São Lucas, Antonio Carlos de Castro.

O equipamento ampliou em 60% a capacidade de leitos da maternidade, que possui 16 vagas. Na clínica médica, o número de leitos aumentou 47%, de 30 para 44. Somente no ano passado, a unidade hospitalar somou 1.656 internações e realizou 476 partos, sendo 288 normais e 188 cesárias. 

“A estrutura anterior era bastante antiga e não permitia mais ajustes. A parte elétrica não comportava ar-condicionado em todos os quartos de enfermaria e equipamentos mais robustos como aparelhos de tomografia 24 horas. Hoje, o hospital oferece conforto aos pacientes, com climatização e televisão. Isso melhora até o tempo de resposta, especialmente em idosos, que são mais sensíveis a temperaturas”, destaca Castro.

Aproximadamente um terço dos pacientes é de outros municípios, como Santo André, Mauá e Suzano, de acordo com o médico. “Acaba influenciando o número de atendimentos e onerando o orçamento da saúde municipal, apertado”, ressalta o diretor médico da unidade hospitalar. 


Sede própria dos Caps poupa R$ 250 mil com aluguéis

Ribeirão Pires, entre as sete cidades do Grande ABC, é a segunda com menor orçamento para a saúde (R$ 179,4 milhões), de acordo com o secretário da Pasta, Luiz Carlos Perlatti. Uma das ações do município para reduzir custos foi o remanejamento das três unidades do Caps (Centro de Atenção Psicossocial), que realizaram, somente nos quatro primeiros meses deste ano, 9.000 atendimentos.

O Caps Adulto foi realocado para parte do antigo prédio do Hospital São Lucas, que também recebeu a UBS (Unidade Básica de Saúde) Centro. Por sua vez, o imóvel liberado foi destinado ao Caps AD (Álcool e Drogas). Já o Caps Infantil foi implantado em parte da estrutura do Centro Odontológico. “Além da revitalização completa, a rede passou a contar com sede própria, gerando uma economia anual de aproximadamente R$ 250 mil somente com aluguéis”, ressalta o secretário.

Um dos principais investimentos municipais nos últimos anos foi o Centro de Especialidades Médicas. Inaugurado em 2022, o equipamento já realizou 90 mil atendimentos. “Antes, o município contava com poucas especialidades, como cardiologia, ortopedia, dermatologia e pequenas cirurgias. Atualmente, são mais de 27 especialidades médicas, além de novos equipamentos e uma estrutura moderna”, destaca Perlatti. 

O gestor destaca, entre outros avanços, a modernização dos exames de ultrassom, a chegada do primeiro aparelho de raio-x panorâmico da história do município e a implantação de um novo mamógrafo. “Além disso, modernizamos e entregamos seis unidades de saúde”, acrescenta.

VIDAS DO SUS

Esta é a sexta reportagem da série que aborda as boas práticas do SUS (Sistema Único de Saúde) no Grande ABC. No próximo domingo (31), será publicada a sétima história.




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