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FOTO: DGABC

O tempo que passamos conversando com máquinas está aumentando e rapidamente. No Brasil, o uso do ChatGPT chegou a 114 minutos por usuário em dezembro de 2025, mais que o dobro registrado no mesmo período de 2024 (52,4 minutos), segundo a Comscore. Além disso, o uso de assistentes de IA no País cresceu 61% em um ano, o que indica que essas ferramentas deixaram de ser novidade para se tornarem parte da rotina. Mas cabe a pergunta: o que isso representa para a comunicação humana?
Em um primeiro olhar, a IA amplia nossa capacidade de expressão. Ferramentas como o ChatGPT ajudam a organizar ideias, revisar textos e até traduzir pensamentos complexos em mensagens mais claras. Para profissionais da comunicação, isso representa ganho de produtividade e acesso a repertórios diversos em segundos. A comunicação torna-se mais ágil, acessível e, muitas vezes, mais estratégica.
Por outro lado, esse mesmo movimento levanta um alerta. Quando recorremos constantemente à IA para formular respostas, estruturar argumentos ou até iniciar conversas, corremos o risco de terceirizar processos cognitivos essenciais, como reflexão crítica, criatividade e construção de repertório próprio. Estudos sobre cognição já indicam que a dependência excessiva de tecnologias pode reduzir a retenção de informações e a capacidade de resolver problemas sem auxílio externo.
Do ponto de vista comunicacional, isso pode levar à padronização do discurso. Se muitas pessoas utilizam as mesmas ferramentas para escrever, argumentar e se posicionar, há uma tendência à uniformização da linguagem, com menor diversidade de vozes e estilos. A comunicação, que sempre foi marcada pela singularidade, pode se tornar mais previsível.
Há também uma dimensão ambiental ainda pouco discutida. O treinamento e o uso de modelos de IA exigem grande capacidade computacional, o que implica alto consumo de energia e emissão de carbono. Com o crescimento acelerado da adoção dessas ferramentas, a expansão da infraestrutura tecnológica intensifica impactos ambientais, especialmente se não houver investimento consistente em fontes de energia mais sustentáveis.
A longo prazo, o desafio será encontrar equilíbrio. A IA pode ser aliada relevante na comunicação e trabalho intelectual, mas não deve ser colocada em um papel de substituição do esforço humano de pensar, interpretar e criar. Mais do que nunca, será necessário desenvolver relação crítica com essas ferramentas, entendendo quando elas potencializam nossas capacidades e quando começam a substituí-las.
Afinal, comunicar é construir sentido e isso ainda é, essencialmente, humano.
Letícia Porfírio é professora do CST Marketing Digital na Uninter.
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