Entrevista da semana
FOTO: Nario Barbosa/DGABC

Por anos, o mantra dos pais era: ‘meu filho está seguro porque está em casa’. Mas, no mundo hiperconectado, as paredes do quarto tornaram-se permeáveis ao horror. A delegada Lisandrea Salvariego, chefe de investigações contra crimes cibernéticos, revela nesta entrevista como plataformas de jogos e redes sociais são usadas para cooptar crianças de até 6 anos em rituais de tortura e extorsão. De madrugadas monitorando tentativas de suicídio ao vivo e casos de violência digital, ‘Tia Lis’ – como é carinhosamente chamada pelas vítimas – alerta: o celular na mão de um adolescente sem supervisão é uma arma voltada contra a própria família.
Raio-X
Nome: Lisandrea Salvariego Colabuono.
Aniversário: 14 de dezembro.
Onde nasceu: Araçatuba (SP).
Onde mora: São Paulo.
Formação: Direito.
Um lugar: Minha casa.
Time do coração: Não tem.
Alguém que admira: Minha mãe.
Um livro: O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. “Vejo muito das vítimas que resgatamos nele.”
Uma música: Como Nossos Pais, com Elis Regina.
Um filme: O Rei Leão, dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff, em 1994. “Pela mensagem positiva.”
A sra. costuma alertar que ‘um adolescente sozinho no quarto com o celular na mão não está seguro’. Para os pais que ainda acreditam que o perigo mora apenas na rua, qual é a real dimensão desse risco nos dias de hoje?
Precisamos entender o contexto. Com a pandemia, os pais deram telas aos filhos com o consentimento de que aquilo era um benefício para os estudos, por exemplo. Nós, de uma geração analógica, fomos criados com a recomendação de ‘não falar com estranhos na rua’, mas essa bagagem não foi transmitida para o ambiente digital. Na cabeça dos pais, o filho no quarto está protegido. No entanto, a internet percebeu isso e transformou jovens em um público-alvo voraz. Quando uma criança está com um tablet dentro do quarto, ela está percorrendo caminhos desconhecidos, em qualquer lugar do mundo, menos ali dentro daquelas quatro paredes. O celular virou tudo, menos um telefone.
Muitos associam o crime digital à ‘deep web’, mas o seu núcleo foca na ‘internet comum’. Por que plataformas populares como Roblox e Discord tornaram-se os palcos principais desse horror?
O crime ocorre onde há chat e possibilidade de conversa. Nossas vítimas hoje têm entre 6 e 15 anos, sendo 90% meninas. O aliciamento começa em jogos on-line. No Roblox, por exemplo, embora vendam uma imagem de segurança, os criminosos utilizam ‘plaquinhas’ dentro do jogo para se comunicar com menores que usam perfis de anime e não mentem seus dados, tornando-se alvos fáceis. A violência nunca começa como violência; ela nasce de um elogio à habilidade da criança no jogo. Depois, o agressor conduz a vítima para aplicativos como Telegram, WhatsApp ou Signal, que permitem uma troca de fotos e vídeos mais efetiva. O Discord é o palco principal por sua origem gamer, que permite o compartilhamento de telas em tempo real para grupos de até 800 pessoas.
Como um simples ‘web namoro’ num jogo on-line escala para o que a sra. define como ‘estupro virtual’ ou sessões de tortura transmitidas ao vivo?
Temos casos de ‘namoros’ que duram até 11 meses antes da primeira foto íntima ser enviada. No momento em que a menina envia o arquivo, a extorsão começa. O agressor exige mais material para subir na hierarquia de seus grupos criminosos (as chamadas ‘panelas’); quanto mais vítimas ele faz, mais ‘hype’ e respeito ele ganha naquele servidor. Se a vítima resiste, começam as ameaças: ele diz que sabe onde ela estuda, onde os pais trabalham e chega a cometer crimes financeiros, como fazer dívidas no cartão da família ou inserir certidões de óbito falsas nos sistemas do governo para aterrorizar a criança. O estupro virtual está pacificado juridicamente: não precisa de contato físico. É a submissão total da vítima, que, nua diante da câmera, é obrigada a realizar rituais de humilhação, cortar o próprio cabelo, fazer cortes no rosto e até introduzir objetos perfurocortantes no corpo, tudo transmitido ao vivo para centenas de espectadores.
Um ponto que choca profundamente em suas investigações é a crueldade contra animais. Como o zoossadismo serve de entretenimento e ‘termômetro’ nessas comunidades virtuais?
É preciso distinguir o papel do animal para a vítima e para o autor. Para a vítima, o pet é uma ferramenta de chantagem: o criminoso exige que ela mate o próprio animal que ama sob a ameaça de vazar seus vídeos íntimos. Já para os autores, a lógica é a da escalada de crueldade. Na mesma medida em que acontece com a tortura humana, quanto mais animais eles matam de forma cruel, mais eles sobem na hierarquia desses servidores. O sofrimento animal gera ‘hype’ e respeito entre os pares. Recentemente, prendemos um jovem de 19 anos em um caso onde esses rituais eram documentados em prints aterrorizantes.
A sra. afirma que estamos formando uma geração ‘viciada em violência’. Por que a ciência compara o consumo de conteúdos cruéis (o chamado gore) ao vício em cocaína no cérebro do adolescente?
Esta geração está profundamente dessensibilizada. A violência começa a ser normalizada por meio de vídeos curtos que parecem inocentes, mas que treinam o cérebro para não se chocar mais com os maus-tratos de animais ou crianças. É como alguém que vem da Suíça e vê uma pessoa em situação de rua em São Paulo pela primeira vez: o choque inicial é imenso, mas no segundo dia a pessoa já se acostuma. O problema é que, uma vez dessensibilizado, o jovem precisa de algo ainda pior para sentir qualquer reação. Isso é o efeito dopaminérgico das telas. Em todos os autores que prendemos, nenhum tinha contato com álcool ou drogas ilícitas; o sistema de prazer deles era alimentado exclusivamente pela tela.
Quem é, afinal, o agressor digital hoje? É verdade que, muitas vezes, ele é o ‘menino bonzinho’ da casa ao lado?
Sim, e isso é o mais assustador. Esse crime é extremamente democrático, atingindo todas as classes sociais e níveis culturais. O perfil comum é de jovens entre 16 e 20 anos, geralmente sem ocupação, que passam o tempo integral na internet. Muitas vezes, trata-se de um rapaz de família estruturada, que não usa drogas e é visto como ‘bonzinho’ pelos vizinhos, mas que vive uma vida paralela de extrema violência no mundo digital.
O núcleo atua como um observador digital 24 horas por dia. Como é a experiência de ligar para os pais no meio da madrugada e avisar que um crime está acontecendo no quarto ao lado?
É uma experiência desesperadora. Minha equipe e eu monitoramos cenários em tempo real, analisando se a estrutura de uma casa suporta, por exemplo, o peso de uma corda que uma criança acabou de colocar no pescoço. Há um ritual macabro: antes de tentar o suicídio ao vivo para o grupo, as vítimas se maqueiam, fazem as unhas e escolhem uma roupa bonita. Quando vemos isso iniciando, acionamos plataformas e buscamos dados para localizar a família imediatamente. Já ligamos para mães na madrugada para que elas invadissem o quarto e interrompessem o ato no exato momento em que ele começava. É uma corrida contra o tempo para impedir que a indução ao suicídio ou a tortura se concretizem.
Além do isolamento, que outros sinais práticos – no vestuário, no sono ou no vocabulário – indicam que um filho pode estar em perigo ou sendo cooptado por essas ‘panelas’ virtuais?
O sinal primário é a busca excessiva por telas, especialmente de madrugada, o que gera uma queda drástica no rendimento escolar. Mas há mudanças estéticas e comportamentais sutis: eles alteram o que chamamos de ‘skin’ (a pele), mudando o jeito de vestir e adotando peças como calças cargo, muitas vezes mimetizando o visual de atiradores de massacres escolares, como os de Columbine (atentado à escola dos EUA em 1999). No vocabulário, passam a repetir ideologias que sequer compreendem – termos sobre ‘raça pura’, niilismo ou nazismo. Eles não são adeptos dessas causas, mas repetem o que ouvem nesses grupos por pura mimetização. Também notamos mudanças na alimentação e oscilações bruscas de humor.
Sobre a privacidade: em que ponto a segurança deve superar o direito à intimidade do adolescente? A sra. defende que os pais ‘invadam’ esse espaço?
Sem dúvida alguma. A segurança e a preservação da vida devem sempre superar o direito à intimidade. Precisamos lembrar que o córtex pré-frontal de um adolescente ainda não está formado; eles não possuem a capacidade biológica de identificar o perigo real ou o que pode atentar contra a própria vida. É um direito totalmente restringível em prol da sobrevivência. Existem ferramentas de controle, como o Family Link, por exemplo, para monitorar o tempo de tela dos filhos; essas são medidas necessárias de proteção.
]As vítimas a chamam carinhosamente de ‘Tia Lis’. Que ‘conselho de ouro’ a sra. daria para que o laço de afeto ocorra dentro de casa, entre pais e filhos, e não com estranhos na internet?
Falta conexão real entre pais e filhos. Recebo ligações de madrugada de crianças dizendo: ‘Tia, eu me cortei’, e quando pergunto se falaram com a mãe, a resposta é: ‘Minha mãe não tem tempo’. O meu conselho é: dediquem tempo e pratiquem a escuta ativa. Ouçam seus filhos sem julgamentos ou questionamentos imediatos. Resgatem o hábito de fazer ao menos uma refeição por dia em família, sem o celular à mesa. Precisamos restabelece o afeto e a referência de segurança dentro do lar.
O modelo de proteção digital existente em São Paulo já está sendo exportado para o restante do Brasil?
Sim, as coisas estão mudando. Inúmeros Estados já vieram conhecer nosso trabalho de perto e receber treinamento. O Acre, por exemplo, já implementou efetivamente um núcleo baseado em nosso modelo. É uma semente que tende a se multiplicar por todo o País.
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