Depois Delas Natural da Turquia, ela relata trajetória de violência após morte da mãe
FOTO: Nario Barbosa/DGABC

Oportunidades interrompidas, sonhos frustrados e a perda da mãe marcaram a vida da dona de casa e moradora de Mauá, Marlene Nacade, 83 anos. Sua mãe, Josefina Duarte, teria sido vítima de feminicídio por volta da década de 1940, após permanecer em cárcere privado imposto pelo marido, segundo relatos de familiares.
Nascida na Turquia, Marlene chegou ao Brasil com apenas cinco meses e foi morar com a família no Interior de São Paulo, no município de Santo Anastácio. Apesar de não se lembrar de muitos detalhes da época, a dona de casa ouviu histórias de familiares e conhecidos sobre o ocorrido e carregou traumas por toda vida.
“Quando viemos para o Brasil, fomos morar em uma cidade bem pequena. Conforme eu crescia, as pessoas diziam que se assustavam com o jeito da minha família, não abriam as janelas e, quando saíam, era apenas meu pai. Minha mãe nunca era vista”, contou.
Marlene lembrou que sua mãe ficava presa dentro de casa, sem permissão do marido para sair. “Todos diziam que ele era muito ruim, mas naquele tempo ninguém se espantava com esse tipo de comportamento violento. Dizem que ele tinha muito ciúme dela, porque minha mãe era muito bonita e mais jovem. Meu pai fechava a porta com cadeado e levava a chave para ela não sair. O tempo foi passando e minha mãe ficou grávida”, disse Marlene.
Presente em um contexto de violência doméstica e mantida em cárcere, sua mãe morreu logo após o parto do segundo filho, quando Marlene tinha dois anos. Em seguida, a dona de casa foi deixada à própria sorte e acabou sendo adotada por conhecidos na cidade.
Apesar de a mãe adotiva lhe oferecer cuidados, o pai adotivo não aceitava sua presença, o que dificultou seu desenvolvimento. Ela relatou que não teve acesso aos estudos, um de seus maiores sonhos, e que conviveu com xingamentos frequentes.
“Minha vida foi tão triste, sabe por quê? Feliz é quem tem mãe. Sinto muita falta do convívio dela e queria a ter conhecido mais. Comento que, se tivesse ela, eu teria estudado. Uma tristeza que carrego muito grande comigo, não consigo ler e escrever, e isso me mata por dentro.”
A filha de Marlene e servidora pública em Mauá, Marisa Nacade, 55, afirmou que a mãe carregou as consequências da violência sofrida. “É uma história de uma infância de sofrimento. O que ela me contou era de um ambiente bastante tóxico e houve esse episódio que, na nossa avaliação, foi um feminicídio, embora naquela época fosse difícil de ser investigado. Ele era violento e o fato de mantê-la em cárcere privado contribuiu para a morte’, concluiu.”
Para Marlene, a vida passou a ter um novo sentido após o casamento, o nascimento das filhas e o apoio encontrado nos cultos religiosos.
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‘DEPOIS DELAS’
Em memória de todas as vítimas, mães e órfãos do feminicídio, esta é a primeira reportagem da série Depois Delas, criada para sensibilizar sobre o tema em pleno Dia das Mães e alertar para como mulheres e filhos tiveram seus laços interrompidos pela misoginia.
Em 2026, o Grande ABC registrou, até o momento, sete casos de feminicídio, sendo que em seis deles as vítimas deixaram filhos. (Cristiane Morais, Mariane Lima, Sabrina Cândido, Stefany Siqueira Lopes, Elane Amorim e Atais de Souza). A segunda matéria sai neste sábado (8).
Da dor ao apoio: filha cria ONG
A filha de Marlene Nacade e servidora pública, Marisa Nacade, 55 anos, criou em 2018 a ONG (Organização Não Governamental) Mulheres em Ação de Mauá. A instituição acolhe mulheres vítimas de violência doméstica e também desenvolve ações de fortalecimento para elas e seus familiares.
A presidente contou que fundou a entidade pela influência da família. “Cresci ouvindo relatos da violência que ela viveu e de como isso impactou sua vida, tornando-a uma mulher retraída, com poucos amigos e contatos. Diante da sua trajetória, decidi me aprofundar nessa área social”, disse.
Marisa iniciou um curso de promotoras legais populares em Mauá, com o objetivo de estudar a violência contra a mulher e o feminicídio. “Conversando com outras mulheres, percebi que muitas delas tinham sentimentos de tristeza e sofrimento. Também notei que várias não possuíam informação nem conheciam seus direitos”, comentou Marisa.
Com o curso em andamento, a presidente passou a promover rodas de conversa em sua casa, com base na formação. Posteriormente, a iniciativa começou a chamar atenção e atraiu voluntárias e mulheres que precisavam de apoio.
Com sede no Parque das Américas, o projeto Mulheres em Ação de Mauá conta com cerca de 40 voluntárias e atendeu no ano passado 500 vítimas. Entre os trabalhos, a ONG fornece ajuda psicológica, assistencial, judicial, entre outros.
“Atendemos mulheres em geral também, não só vítimas de violência doméstica. Por exemplo, pessoas que de alguma forma precisam ser fortalecidas e empoderadas. Na quarta-feira (6) promovemos um curso de culinária, porque entendemos a necessidade de qualificação das participantes”, concluiu Marisa Nacade.
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