São Bernardo lidera Especialistas apontam subnotificação dos casos e destacam processo de silenciamento das vítimas; mulher foi baleada na cabeça em Santo André
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Entre 2023 e 2025, o Grande ABC registrou 49 denúncias de violência contra pessoas trans. Os dados são do Disque 100, plataforma do governo federal que reúne casos de diferentes tipos de violações, como agressões físicas, verbais e psicológicas, além de restrições de direitos e outras formas de violência. Apesar de o canal estar disponível desde 2021, os dados desse período não estão acessíveis.
Nos três anos analisados, São Bernardo concentra o maior número de registros, com 14 queixas. Em seguida, aparecem Santo André e Mauá, com 12 e 11, respectivamente. Diadema soma oito casos, Rio Grande da Serra registra três, e São Caetano encerra a lista com apenas uma denúncia. Já Ribeirão Pires não apresenta nenhuma notificação, segundo o governo federal.
A violência contra essa população ganhou repercussão recente após Robertha Suzana de Oliveira Félix, mulher trans de 23 anos, ser baleada na cabeça, à queima-roupa, na madrugada do dia 24 de abril, no bairro Campestre, em Santo André. O crime teria sido motivado após a vítima ser acusada de furtar o celular do suspeito dos disparos, Mario Augusto Annunziata, 46, que possui registro de CAC (Colecionador, Atirador e Caçador) e foi preso em flagrante.
Segundo Maycon Legri, advogado e presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Santo André, o volume de denúncias no canal do governo federal não reflete a realidade vivida por essa população, o que sugere subnotificação.
“Há o medo de retaliação, a desconfiança nas instituições e a falta de acolhimento adequado. Também existe a normalização da violência. A vítima, por vezes, deixa de registrar por considerar comum sofrer agressões no ambiente em que vive e acaba não notificando. Esses 49 casos de denúncia tendem a representar apenas a ponta do iceberg e, do ponto de vista técnico, devem ser interpretados como um indicador mínimo”, disse.
A falta de dados também evidencia a invisibilidade dessa população. “O silenciamento social, que é a inviabilização das vivências trans, evita o debate público. Isso gera o desaparecimento dos casos. Pessoas trans sempre foram marginalizadas, com exclusão do mercado de trabalho, da educação e de direitos básicos”, reforçou Legri.
A estagiária, estudante de direito e moradora de Diadema, Wandy Pinheiro, 27, relatou que passou por diversos episódios de transfobia no ano passado, em uma empresa de telemarketing, em São Bernardo.
“Quando estava no treinamento, fui chamada pelo meu nome morto e por pronomes errados. Na segunda vez, disseram que não podiam colocar o nome social no vale-alimentação, sendo que há uma lei que assegura esse direito, e no aplicativo era possível incluir tranquilamente. Nem chegaram a verificar e sempre fizeram pouco caso. Mesmo assim, continuei me empenhando e evoluindo. Porém, algum tempo depois, fui demitida e percebi que não valia nada”, relatou.
A socióloga e professora da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), Daniele Kowalewski, afirmou que o processo de silenciamento ocorre quando a violência é tratada como caso isolado. “Esse silêncio integra a própria violência e afasta pessoas trans do campo da cidadania. Ele se manifesta quando a escola não promove o debate, quando delegacias não qualificam corretamente os casos e quando a sociedade só enxerga essas pessoas após sua morte.”
Casa Neon acolhe população LGBT, mas enfrenta falta de apoio público
A Casa Neon, em São Bernardo, é um local de referência e abrigo para pessoas LGBTs em situação de vulnerabilidade e vítimas de violência. Apesar do papel relevante, o presidente Paulo Araújo relata falta de apoio financeiro das administrações municipais.
“Por mês atendemos entre 200 a 250 pessoas, sendo que 70% é do público transfeminino. A Casa Neon tem o papel fundamental de construir o acesso à população LGBT, promovendo dignidade e acolhimento”, disse.
Segundo o presidente, as prefeituras poderiam dar maior atenção. “Hoje, 60% do nosso orçamento é via emendas parlamentares. Somos um equipamento que todos da região utilizam. A própria Prefeitura de São Bernardo encaminha demandas. Mauá também. Então todos os equipamentos da região utilizam o serviço, mas não ajudam a subsidiar.”
Em nota, a Prefeitura de São Bernardo informou que mantém diálogo permanente com a entidade, com orientações acerca de apoio às atividades. Já Santo André afirmou que “o principal equipamento de referência na cidade é o Centro de Referência de Proteção à Mulher, que realiza escuta qualificada”. Diadema declarou que não há fluxo institucional formal. Questionadas, as demais prefeituras do Grande ABC não responderam.
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