Exaustão Trabalhadores relatam exaustão causada por rotina e empresários discutem faturamento
FOTO: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O debate sobre propostas para o fim da escala 6x1 (trabalha seis dias e descansa um) se tornou a principal demanda da classe operária brasileira e tem avançado no Congresso Nacional. No Dia do Trabalhador, celebrado nesta sexta-feira (1°), moradores do Grande ABC relatam como a jornada impacta a rotina e, em paralelo, expõem os desafios de empresas para abandonar o modelo, que ainda é considerado essencial para manter a operação e os custos sob controle.
Dados do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) mostram que a jornada mais longa também está associada a menores salários. Trabalhadores com carga horária de 44 horas semanais recebem, em média, R$ 2.600, cerca de 58% a menos do que aqueles com jornada de 40 horas, cuja média salarial é de R$ 6.200.
A jornada de 44 horas predomina no País, presente em 74% dos vínculos formais, o equivalente a 31,8 milhões de trabalhadores. O estudo aponta que essas ocupações estão concentradas em funções operacionais, com menor exigência de qualificação, e tendem a apresentar maior rotatividade e menor estabilidade.
Relatos de exaustão, dificuldade para manter os estudos e vida social limitada se contrapõem a empresas que temem enfrentar margens de lucro apertadas, queda de faturamento e obstáculos para organizar equipes. No setor de serviços, a avaliação é de que qualquer mudança no modelo pode pressionar custos, afetar a operação e chegar ao consumidor.
Aos 19 anos, o atendente de mercado Gilvan da Fonseca vive na prática os efeitos da escala 6x1. Morador do bairro Ferrazópolis, em São Bernardo, ele tenta conciliar as demandas do trabalho como operador de loja com o curso de Publicidade e Propaganda na Umesp (Universidade Metodista de São Paulo). Tudo isso além das duas horas diárias que passa no transporte público.
“Às vezes, eu chego muito cansado e penso em faltar na aula para descansar. Tem atividade da faculdade que não consigo fazer por falta de tempo.”
A jornada começa cedo. Fonseca entra às 7h e termina às 15h20, quando sai do trabalho, depois vai para a universidade. Ele relata que o desgaste se acumula ao longo da semana e afeta diretamente o rendimento acadêmico. “Quando chega quarta, quinta-feira, o corpo já está pesado. Não rendo igual. Queria conseguir me dedicar mais, mas o cansaço fala mais alto.”
O estudante sente que a rotina limita oportunidades e afasta o futuro profissional que almeja com a formação universitária. “O único tempo que eu tenho para estudar é na faculdade. Não consigo fazer curso por fora. Isso acaba me atrasando.”
A vida social também fica em segundo plano. “Fim de semana é quando daria para fazer algo, mas eu trabalho. Existem momentos em que eu fico fora de tudo, sem conviver com família ou amigos”, lamenta.
REALIDADE
No Grande ABC, no entanto, existem empresários que já aderiram à redução da jornada. Em Santo André, a proprietária da Portal do Vidro Distribuidora, Giselle Teixeira, 45, decidiu migrar a equipe para o 5x2 (trabalha cinco e descansa dois dias). A principal motivação foi melhorar a qualidade de vida dos funcionários. “Eles não tinham tempo com a família. Trabalhar aos sábados gerava desânimo. Não abrimos mais aos sábados. Consequentemente, o faturamento caiu porque é um dia a menos abertos, mas tivemos mais satisfação e melhora no rendimento durante a semana”, diz.
A reorganização levou tempo. “Demorei oito meses para ajustar tudo. Não é simples”, afirma. Para ela, a adoção do 5x2 depende do perfil do negócio. “Cada empresa tem sua necessidade. Não deveria ser obrigatório”, opina.
Em São Bernardo, ato do Sindicato dos Metalúrgicos pauta redução de jornada
Centrais sindicais se mobilizam hoje, no Dia do Trabalhador, para atos em todo Brasil. A principal pauta deste ano é o fim da escala 6x1 (seis dias de trabalho e um de descanso), analisado pelo Congresso Nacional. Em São Bernardo, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC promove, a partir das 9h, ato no Paço Municipal, com outras 25 entidades sindicais. O evento tem o lema de ‘Nossa luta transforma vidas’ e mistura mobilização política com programação cultural. A entrada é mediante doação de dois quilos de alimentos.
O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad (PT) e outras lideranças políticas vão subir ao palco.
Estão confirmados artistas como Gloria Groove, MC IG, Filho do Piseiro, Grupo Intimistas, Grupo Entre Elas, Marquinhos Sensação, Grupo SP5, Grupo Razão, Don Ernesto, Samba de Luz, Samba e Amigos, Alex Rocha, Kadu do Piseiro e Hyaguinho Vaqueiro.
O enfrentamento à pejo-tização e fortalecimento das negociações coletivas e dos direitos para os servidores públicos também estão entre as reivindicações. “Trazer essas pautas para o 1º de Maio é fundamental para fortalecer a mobilização e pressionar por avanços que se transformem em lei”, diz o diretor do sindicato Wellington Damasceno.
O ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, declara que a discussão da redução de jornada semanal de 44 para 40 horas ocorre diante do aumento expressivo de doenças profissionais, como questões mentais, e faltas. “Há um terrorismo, em especial de entidades empresariais, de que o mundo vai acabar com a redução da jornada de trabalho sem redução de salário.”
Para ele, a 6x1 é um dos principais fatores que dificultam o preenchimento de postos de trabalho, principalmente pelos mais jovens. “A sociedade grita que precisa de mais tempo para a família, para cuidar de afazeres, para agregar mais conhecimento”, afirma.
Indústria teme impacto de R$ 87,8 bilhões, diz CNI
Se para o trabalhador o modelo pesa na rotina, para parte das empresas a mudança ainda é um desafio financeiro e operacional. Levantamento da CNI (Confederação Nacional da Indústria) indica que a redução da jornada semanal pode elevar entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões por ano os custos com empregados formais no País, o equivalente a um aumento de até 7% na folha de pagamento.
O impacto pode chegar a R$ 87,8 bilhões na indústria, com maior pressão sobre micro e pequenas empresas. Em segmentos como construção e comércio, a alta de custos pode ultrapassar 10%.
No setor de serviços, em que o funcionamento contínuo é parte do modelo de negócio, a resistência para aderir ao 6x1 é alta. À frente de três restaurantes na região, o empresário Marcell Araújo Joaquim, 37 anos, afirma que a escala é essencial para manter a operação. “A gente segue a legislação e a convenção coletiva. Não teria nem como implementar isso agora. Teria que contratar mais gente. Isso aumentaria o custo e seria repassado para o cliente.”
O empresário aponta dificuldade crescente em atrair e manter trabalhadores mais jovens. “A geração que está vindo não quer mais esse tipo de trabalho. Não sei se é só o 6x1, mas é um modelo que eles não procuram.” Mesmo assim, ele reconhece o desgaste da equipe. “É uma jornada puxada, não é fácil.”
CONGRESSO
Atualmente, o modelo de trabalho 6x1 é permitido desde que respeite limites como jornada de até 44 horas semanais, pagamento de horas extras e descanso semanal remunerado. Na prática, porém, há falhas recorrentes.
“É comum a extrapolação da jornada sem o devido pagamento de horas extras, além da concessão irregular do descanso semanal”, declara a advogada especializada em direito trabalhista e previdenciário Márcia Ribeiro. Segundo ela, setores como comércio e serviços concentram a maior parte dos problemas, com “escalas desorganizadas, ausência de folgas compensatórias e descumprimento de intervalos”.
Na Câmara dos Deputados, uma comissão especial foi instalada para analisar duas PECs (Propostas de Emenda à Constituição) tratam da redução da jornada semanal de trabalho. Uma prevê a diminuição gradual da carga de 44 para 36 horas ao longo de dez anos, enquanto outra propõe jornada de quatro dias de trabalho por semana para entrar em vigor 360 dias depois da aprovação. “Elas podem ser analisadas em conjunto e até unificadas nas próximas etapas”, diz Márcia.
O relator da comissão , deputado Leo Prates (Republicanos-BA), afirma que pretende apresentar o seu parecer ao colegiado até 22 de maio. Em paralelo, o presidente Lula enviou para o Legislativo projeto de lei com caráter de urgência para reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais.
Outros modelos seguem válidos e não são afetados automaticamente pelo debate. “A escala 12hx36h não sofre mudança só porque se discute o fim da 6x1. O empregado trabalha 12 horas e descansa 36 horas, desde que haja acordo individual escrito, acordo coletivo ou convenção coletiva. Se houver redução da jornada máxima semanal, essa escala pode ser ajustada ou regulamentada de outra forma.”
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