Lazer Em vez de apenas mesas, cardápios e drinks, vivências atraem cada vez mais público na região
FOTO: Reprodução/Instagram

O modelo tradicional de bares, centrado apenas em comida e bebida, já não dá conta de atrair o público no Grande ABC. Em vez disso, cresce a procura por espaços que oferecem algo a mais: experiências. Karaokês, festas temáticas, oficinas criativas e até atividades voltadas ao bem-estar fazem parte dessa mudança. Os chamados “rolês de experiência” têm transformado o lazer na região, e também o comportamento do público.
No Vedê Bar, em Santo André, essa mudança partiu da percepção de que a qualidade sozinha já não garantia engajamento. “Mesmo oferecendo drinks de altíssima qualidade, os clientes não demonstravam tanto engajamento”, afirma o empresário Thales Redivo, 27 anos, proprietário do espaço.
Segundo ele, o ponto de virada aconteceu durante a crise do metanol no Grande ABC, que afetou bares da região e levou o negócio a se reinventar. “Foi nesse momento que sentamos para repensar o bar e buscar formas de nos reinventar. Passamos a criar experiências que vão além da bebida, unindo a socialização típica de um bar com eventos voltados ao bem-estar, além de iniciativas que incentivam arte e criatividade, principalmente para o público feminino", contou.
Entre as práticas oferecidas no espaço, localizado na Rua das Figueiras, 1206 - Jardim, uma das que mais ganhou destaque combina atividade física e consumo leve. “Um exemplo claro disso é o ioga com Aperol (aperitivo alcoólico italiano) que se tornou uma das nossas principais experiências", disse. As programações especiais são realizadas de forma esporádica, com datas e horários divulgados pelo intagram oficial do estabelecimento @vede.bar.
No Beco Torto, em Santo André, a experiência sempre esteve no centro da proposta, mas ganhou ainda mais força com a mudança no perfil do consumidor. Segundo Sandra Gaspar, 54, empreendedora e proprietária do estabelecimento, o público atual procura mais do que consumir. “O consumidor de hoje tem maiores exigências em relação ao que consome e aos lugares que frequenta, buscando viver experiências não apenas prazerosas, mas também diferentes e interessantes", afirmou.
Um dos principais exemplos é o karaokê da casa, que vai além do formato tradicional ao colocar o cliente como protagonista. “O cliente escolhe a música e vira o vocalista da banda, criando um protagonismo diferenciado: o cliente interage com os músicos e tem a sensação de estar se apresentando de verdade", complementou.
Além disso, o espaço, localizado na Rua Santo André, 293 - Vila Assunção, aposta em outras frentes para diversificar a experiência, como cardápios temáticos, festas em datas específicas (como Halloween e Dia do Orgulho Nerd), discotecagem e transmissão de eventos culturais e esportivos. Mais do que atrair novos clientes, essas estratégias ampliam os perfis que frequentam os espaços. “Notamos diferenças, mas não como uma total mudança de público, e sim como uma diversificação. O ponto não é a idade, mas o interesse pela atividade/evento oferecido", concluiu. O ambiente funciona a partir das 18h e as atividades são divulgadas pelo Instagram @obecotorto.
Essa percepção também aparece entre os frequentadores. A estudante Maria Eduarda Miranda, 22, moradora de Santo André, conta que, ao escolher onde sair, prioriza lugares que ofereçam algo fora do comum. “Quando quero sair um pouco da mesmice, lugares com experiências diferentes são os que mais chamam a atenção", destacou. Para ela, esse tipo de 'rolê' tem um valor que vai além do momento. “Algumas dessas vezes ficam na memória para sempre. Isso torna a experiência muito especial", declarou.
Além de mais marcantes, essas atrações também influenciam a forma como as pessoas interagem. “Todo mundo que se dispõe a fazer algo um pouco mais diferente está empolgado e mais suscetível a socializar. Esse tipo de evento tem justamente o efeito de promover integração e incentivar o aproveitamento do presente", contou.
Do ponto de vista psicológico, o fenômeno reflete mudanças recentes no comportamento social. A psicóloga clínica e analista comportamental, Alexandra Freire de Melo, aponta que o excesso de estímulos digitais tem impactado diretamente essa busca por experiências presenciais. “Desde a pandemia, a hiperconexão digital tomou conta da população e atualmente muitas pessoas começaram a perceber que estar em telas o tempo todo vem causando cansaço mental, estresse digital, excessos de comparação e sensação de isolamento", pontuou.
Nesse contexto, sair de casa ganha um novo significado. Mais do que lazer, esses espaços passam a funcionar como ambientes de conexão. “As atividades interativas são uma excelente oportunidade de trazer as pessoas novamente para relações sociais reais, foco no momento presente e uma forma de descompressão do estresse do dia a dia. O ser humano não adoece apenas pela falta de descanso, mas também pela falta de conexão e esses ‘rolês’ favorecem a sensação de pertencimento e resgate de memórias afetivas", concluiu.
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