Artigo Esse dado desafia a ideia de que desenvolvimento material leva automaticamente ao bem-estar

Os dados recentes da Ipsos trouxeram à tona um fenômeno que, à primeira vista, parece paradoxal: o Brasil está entre os países mais felizes do mundo, ao mesmo tempo em que aparece entre os mais ansiosos. A combinação revela dinâmicas diferentes do funcionamento emocional.
Na pesquisa elaborada pela Ipsos, o Brasil aparece entre os primeiros colocados em felicidade subjetiva, com cerca de 28% das pessoas se declarando muito felizes e mais de 50% razoavelmente felizes. Fica atrás apenas de Indonésia e Índia nesse grupo, e à frente de diversas nações desenvolvidas. Em contraste, países como os Estados Unidos apresentam níveis mais baixos de felicidade percebida, mesmo com maior estabilidade econômica.
Esse dado desafia a ideia de que desenvolvimento material leva automaticamente ao bem-estar. Isso ocorre porque felicidade e ansiedade operam em eixos distintos.
A ansiedade está ligada à percepção de incerteza e ameaça. No Brasil, essa percepção é alimentada por fatores como insegurança econômica, instabilidade social, violência urbana e desigualdade, além da forma como esses temas aparecem na mídia. Há também maior sensibilidade interpessoal, que amplia a preocupação com avaliação social. Do ponto de vista neurobiológico, isso eleva a reatividade do sistema de alerta.
Já a felicidade subjetiva depende da presença de experiências positivas, especialmente aquelas relacionadas a vínculo e pertencimento. E é nesse ponto que o Brasil se destaca.
Os dados refletem algo evidente no cotidiano: há facilidade para conexão afetiva. Contato físico, humor e conversa informal geram interações frequentes. Mesmo trocas breves produzem microexperiências de prazer e pertencimento.
No cérebro, essas experiências ativam sistemas de recompensa e conexão social, envolvendo neurotransmissores como a dopamina e a ocitocina, que sustentam a sensação de bem-estar, mesmo quando estamos em contextos adversos.
Outro aspecto relevante é que o Brasil ainda não está completamente inserido em uma lógica de hiperindividualismo e excesso material. Quando a vida se organiza apenas em torno de desempenho e comparação social, há aumento de isolamento e redução da satisfação subjetiva.
O que os dados, portanto, mostram não é uma incoerência, mas uma combinação específica: ansiedade elevada, impulsionada por percepção de risco, e felicidade sustentada por vínculos, afeto e capacidade de viver o presente.
Diogo Lara é médico psiquiatra e neurocientista.
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