Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica Maria Madalena seguiu a profissão herdada da mãe; geração seguinte optou por trilhar outros caminhos
FOTO: Celso Luiz/DGABC

A história de três gerações da família Cardoso, de São Bernardo, atravessa o trabalho doméstico, a migração para São Paulo e a busca pela educação como ferramenta de transformação social. Filha e neta de empregadas domésticas, a professora de Educação Física Leticia Cardoso Negreiros, 40 anos, vê na trajetória da mãe e da avó um símbolo de resistência e mudança de vida.
A mãe dela, Maria Madalena Araujo Cardoso, 65, cresceu acompanhando a luta da falecida mãe, Maria de Paiva Ramos, que saiu do interior de Minas Gerais rumo à Capital para trabalhar em casas de família. Anos depois, Madalena também começou a trabalhar ainda criança como babá e posteriormente como empregada doméstica.
Hoje, ao ver os filhos formados, Letícia, professora das redes estadual e municipal, e Leandro Cardoso Negreiros, 44, gerente de equipes, Madalena resume o sentimento em uma frase. “Tudo que aprendi nas casas em que trabalhei, passei para meus filhos”.
Nesta segunda-feira (27), é celebrado o Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica. Segundo dados do Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Grande ABC possui 36.582 pessoas trabalhando em serviços domésticos. Desse total, 35.695 são mulheres, o equivalente a 97,5% da categoria na região.
São Bernardo concentra o maior número de trabalhadoras domésticas, com 10.366 mulheres, seguido de Santo André, com 8.867, Mauá, com 6.697, e Diadema, com 6.221.
“Chego para quebrar essa barreira geracional”, diz Leticia ao falar sobre a própria trajetória. “Foram duas gerações de empregadas domésticas na família, uma profissão muito digna. Com o esforço delas, tive mais oportunidades para estudar.”
Natural de Araçuaí, em Minas Gerais, Maria de Paiva Ramos, avó de Leticia, deixou o interior mineiro no fim da década de 1960 para tentar reconstruir a vida em São Paulo. Depois de conseguir trabalho em uma casa de família no Brás, trouxe os filhos para a Capital.
“Ela veio sozinha para São Paulo e trouxe a família inteira depois. Nós fomos morar em um cortiço. Minha mãe foi uma guerreira”, lembra Madalena.
CAMINHO DA EDUCAÇÃO
“Se eles (filhos) me pediam tênis de marca e eu não podia dar, eu dava estudo. Sempre falei para eles que estudo era tudo”, conta Madalena.
Leticia destaca que a profissão de empregada doméstica é essencial, mas afirma compreender o peso simbólico de representar uma geração que conseguiu chegar à universidade.“É um marco de transformação social. Houve uma melhora econômica na família e tive mais oportunidades para estudar.”
Ela também define a mãe como uma mulher imparável. “Ela sempre se reinventa para superar os desafios da vida”, disse a filha orgulhosa.
EXEMPLO NA ALESP
A deputada estadual Ediane Maria (Psol), primeira empregada doméstica eleita para a Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), afirma que a categoria ainda enfrenta situações precárias de trabalho e violência.
“As trabalhadoras continuam em busca de dignidade e direitos. A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) das Domésticas completou 13 anos este mês e tivemos muitos avanços, mas ainda existem muitas trabalhadoras sem carteira assinada e trabalhando em situações precárias”, afirmou.
Sobre educação, a parlamentar também destacou a importância do estudo para romper ciclos sociais. “Como mãe de quatro filhos que não teve contato frequente, como gostaria de ter, em razão do trabalho, acredito mesmo que é um caminho para emancipação.”
No calendário do Estado, também nesta segunda-feira, é celebrado o Dia Estadual da Trabalhadora Doméstica e de Cuidados, instituído pela Lei nº 17.948/2024, de autoria da deputada.
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