Entrevista da Semana
FOTO: Divulgação/Anderson Gradischer

Em 1989, aos 13 anos, Edney Souza vivia no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, quando fez um curso de programação que mudaria sua vida. Já no ano seguinte, começou a dar aulas na área. De lá para cá, se tornou referência em tecnologia, como palestrante, professor da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e empreendedor, tendo fundado sete startups. O apelido ‘Interney’ chegou em algum ponto dessa trajetória. Ao acompanhar todas as ondas, do MS DOS até a IA atual, ele afirma: “é preciso produzir para viver, não viver para produzir. A verdadeira riqueza é caminhar com minha filha, viajar ou estar com quem amamos”.
Raio-X
Nome: Edney Souza.
Aniversário: Preferiu não responder, alegando razões de segurança: “Com esses dados, o meu ano de nascimento e o nome da minha mãe, que são fáceis de descobrir, já dá para alguém abrir uma conta ou crediário no meu nome, por exemplo”.
Onde nasceu: São Paulo.
Onde mora: São Paulo.
Formação: Processamento de dados.
Um lugar: Uma rede.
Time do coração: Não tenho.
Alguém que admira: Meu pai.
Um livro: Futuro Ancestral, de Ailton Krenak.
Uma música: Home, de Edward Sharp e The Magnetic Zeros.
Um filme: A trilogia O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson (2001, 2002, 2003).
Atualmente, a Inteligência Artificial assusta muita gente. O que é essa ferramenta?
A IA é um conjunto de tecnologias, um grande guarda-chuva que reúne diversas soluções. Entre elas, a que mais se destaca hoje é a IA generativa, capaz de criar conteúdos. Esses conteúdos são produzidos com base no treinamento do sistema, feito a partir de grandes volumes de dados, como textos, imagens, vídeos e músicas disponíveis na internet. Com isso, a IA aprende padrões de escrita, imagem e som, e passa a reproduzi-los. Embora pareça criar do zero, na prática ela calcula probabilidades, organizando palavras, imagens ou elementos com base nesses padrões. Trata-se, portanto, de uma criatividade baseada no que foi aprendido. Em termos simples, inteligência artificial é quando uma máquina ou sistema executa tarefas que exigiriam inteligência para serem realizadas por humanos. Ou seja, realiza tarefas inteligentes de forma artificial, já que não possui consciência ou origem humana.
O sr. sugere que não se trate a IA como um “oráculo” que sabe tudo, mas como um estagiário talentoso, mas que pode errar. Explique melhor.
A IA não tem intenção de mentir, mas sempre busca gerar uma resposta que pareça adequada. Às vezes, erra porque foi treinada com todo tipo de conteúdo da internet, incluindo materiais técnicos e obras de ficção, como romances e séries, que não têm compromisso com a verdade. Quando você pede algo, ela tenta produzir a melhor resposta possível com base no comando recebido. A analogia com um estagiário ajuda a entender: ele sabe bastante, mas ainda não tem experiência prática. Por isso, precisa de instruções claras e detalhadas. Se você pede um roteiro de viagem para o litoral, a resposta tende a ser genérica. Mas, ao incluir preferências, experiências anteriores e o que deseja repetir ou evitar, o resultado se torna mais personalizado e útil. O segredo está nesse refinamento.
O sr. diz que transformamos pessoas em máquinas e temos dificuldade de ser gente de novo. Estamos perdendo nossa humanidade no processo de digitalização?
Fomos orientados a ter boa performance sem atenção ao lado humano. É comum ouvir no trabalho: “você não está aqui para fazer amigos, mas para bater meta”. Mas a IA já escreve, monta planilhas, apresentações e mensagens. O que não faz? Não se preocupa genuinamente com a saúde e as emoções das pessoas, nem cria vínculos reais. Você não leva a IA para um bar, um almoço ou uma viagem, nem constrói memórias com ela. Essa dimensão humana, de se relacionar e interagir, precisa ser resgatada. Você sabe onde seus colegas moram? Se têm família? Conectar-se passa a ser diferencial, como importar-se com o outro e exercer empatia.
O sr. afirma que a IA “subiu a barra da mediocridade”. Atualmente, ser mediano é risco de demissão?
Retomando o exemplo, imagine um agente de viagem. Ao contratá-lo, espera-se que ele ajude a criar um roteiro excepcional. Mas, se a IA entrega algo equivalente, por que contratar o agente? A diferença aparece quando o profissional oferece o que a IA não alcança: lugares exclusivos, descontos, contatos confiáveis, experiências já organizadas e até hospedagens fora de plataformas como o Airbnb. Nesse momento, fica claro o valor adicional. Ou seja, o profissional precisa ir além da média. Caso contrário, a IA, que entrega resultados medianos de forma constante e gratuita, já é suficiente. Isso acontece porque ela foi treinada com uma enorme quantidade de dados desorganizados e, no fim, entrega uma média de tudo o que existe na internet. Nesse cenário, o trabalho mediano deixa de ser aceitável, pois algo mediano já está disponível, o tempo todo, no bolso de qualquer pessoa.
O sr. defende que não somos nossas “profissões”, mas sim uma coleção de habilidades. Como trocar habilidades velhas por novas?
Sempre fomos um conjunto de habilidades, nunca uma profissão. Mas faltava clareza sobre isso. Em uma empresa, dois analistas de marketing podem ter perfis distintos: um escreve melhor, outro domina planilhas. O primeiro poderia ser redator; o segundo, migrar para a área financeira. Todos temos habilidades que transcendem o cargo. Ao desenvolver novas competências, ampliamos as possibilidades profissionais. Por isso, é essencial perguntar: “no que sou bom?” ou “o que faço melhor que meus colegas?”. Ao responder, surgem padrões: mais criatividade, análise ou comunicação. Trata-se de autoconhecimento. Com a IA assumindo parte das tarefas, esse autoexame se torna ainda mais necessário para entender no que você se destaca e que outras atividades pode desempenhar.
O sr. critica o fato de terem removido a Filosofia das escolas. Em um mundo onde a IA dá respostas prontas, como a Filosofia nos ajuda?
O pensamento crítico é uma habilidade desenvolvida na Filosofia. Mas o que significa? É questionar e não aceitar algo apenas porque alguém disse. Se alguém afirma: “Você viu o que aconteceu com fulano?”, a reação é perguntar: “Onde você viu isso? Como sabe que aconteceu? Tem certeza?”. O pensador crítico não aceita nada por simples afirmação. A Filosofia ensina a questionar, refletir, argumentar e debater, com troca de ideias.
Por que trabalhar com a ajuda da IA pode ser mentalmente mais exaustivo do que o trabalho manual e como se proteger desse esgotamento?
Para produzir uma aula, preciso pesquisar referências, organizar o conteúdo e montar a apresentação. Esse processo exige grande esforço mental. Depois que defino o que entra, montar os slides se torna mais leve. Com a IA, parte desse caminho muda. Ela ajuda a encontrar fontes, explicar conceitos, traduzir ideias e organizar o material. Nesse momento, sigo trabalhando intensamente com a ferramenta. Quando chega a hora de montar a apresentação, já está tudo estruturado, e ela faz isso rapidamente. Em seguida, passo para outro trabalho: um guia, um artigo ou um conteúdo gravado. E o ciclo recomeça. O cérebro fica concentrado quase só nas tarefas mais exigentes. Isso leva a dois caminhos. O primeiro é perigoso: o cansaço faz com que a pessoa pare de questionar e apenas aceite o que a IA entrega. Há estudos indicando que o pensamento crítico diminui. O raciocínio enfraquece. O segundo é continuar questionando, mas com sobrecarga. Um trabalho que antes ocupava oito horas passa a exigir esforço cognitivo intenso o tempo todo. Qual é a saída? Manter o senso crítico, mas intercalar tarefas ao longo do dia com atividades que não dependam de IA. No meu caso, dar aula é mais leve do que prepará-la, então alterno. Não é sustentável passar dias apenas pesquisando e organizando conteúdo. O excesso de esforço mental pode levar ao esgotamento, burnout e outros problemas de saúde. No fim, a IA não elimina o esforço, que fica concentrado, o que exige mais consciência sobre como a usamos.
Falando em segurança, os “deepfakes” (vídeos e áudios falsos) já permitem enganar até mães achando que falam com os filhos. Como se defender de golpes pelo celular?
Já há tecnologia capaz de recriar vídeo e voz com alta precisão. Um criminoso pode usar conteúdos do YouTube, TikTok ou Instagram para gerar um vídeo falso com imagem e voz idênticas às de uma pessoa. Imagine receber uma chamada de vídeo do seu filho, sem saber que é falso, dizendo que foi roubado e pedindo um Pix. Esse tipo de golpe já está ocorrendo. Diante disso, a recomendação é simples: combinar previamente, de forma presencial, uma senha ou palavra-chave. Ao receber uma ligação, peça a confirmação antes de tomar qualquer ação, reduzindo o risco de fraude.
A sociedade mede o sucesso pelo modelo do carro ou saldo bancário. O sr. afirma que seu maior luxo é ter 60 dias de férias por ano e tempo para caminhar com sua filha. A IA só terá valido a pena se ela nos ensinar a produzir para viver, e não a viver apenas para produzir?
Em nossa sociedade, uma das grandes doenças é a obsessão pelo sucesso financeiro. Muitas pessoas colocam isso como prioridade e passam a focar nas posses, como casa grande, carro do ano e padrão de vida elevado. Para sustentar esse estilo, acabam se tornando escravas do próprio consumo. Acreditam que serão felizes quando ganharem mais, mas, como sempre há alguém com mais dinheiro, essa satisfação nunca chega. É preciso mudar a pergunta: com o que você tem hoje, o que consegue fazer? Vim da periferia e vi muitas pessoas felizes com pouco, o que me deu consciência das minhas oportunidades. Em certo momento, percebi que já era suficiente. Não preciso de mais bens, prefiro investir em experiências, como viajar e estar com as pessoas que amo. Hoje, produzo para viver, não vivo para produzir. Meu trabalho não define minha vida. Valorizo momentos simples, como caminhar, sair com quem gosto, conhecer culturas e aprender. Essa é a riqueza que faz sentido. Também é importante abandonar a ideia de felicidade constante. Ela não existe. Teremos momentos felizes e outros de frustração. Quando acreditamos que a felicidade está sempre no futuro, entramos na busca infinita por mais. Felicidade por vezes está em pausar, observar e ser grato pelo que já se tem. Não significa se acomodar, mas evoluir sem adiar a vida. Porque a felicidade pode estar no agora.
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